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Freitag, 18. Juni 2010

à propos José Saramago


Como terá sido impossível escapar à atenção de algum, morreu hoje, pelo fim da manhã, José Saramago. E deste modo, quero antecipar-me a eventuais comentários dos meus colegas bloguistas e afirmar, sem reservas, que gosto de José Saramago, e especialmente de toda a sua arrogância.

Dienstag, 20. Oktober 2009

Resposta ao Manifesto anti-Saramago

Eu diria que há, sensivelmente, duas maneiras de olhar para as escrituras. Ou a bíblia (como tantos outros textos religiosos) é uma das primeiras tentativas da humanidade à filosofia, à literatura, à cosmologia, à astronomia e até à medicina ou então é um texto de inspiração divina que existe para guiar o Homem à salvação.
Seja qual for, a bíblia é um documento de incomensurável valor, que sem sombra de dúvida, nos diz muito sobre as nossas origens e os primórdios da civilização.
No entanto, os anos trouxeram homens que, por seu próprio mérito contribuíram de tal modo para as acima enunciadas disciplinas que não só ergueram novos paradigmas como demonstraram o quão inadequados eram os anteriores. Estes homens são os degraus na escada da história da humanidade.

Eu defendo a ideia de que um livro escrito com inspiração divina que possa ter tantas falhas não é um livro escrito com inspiração divina. E não hesito em dizer também, que também o velho testamento tem passagens lindíssimas; e também não me custa dizer que um dos conceitos que Jesus ensina é o mais sinistro de todos os conceitos alguma vez encontrados nas escrituras.
Nem com todo o genocídio, violação e infanticídio no antigo testamento há uma menção do castigo dos mortos. A punição infinita por crimes finitos, crimes cometidos em vida, por acreditar no deus errado, por tudo e mais alguma coisa.

"Tenho más notícias para ti, és um ser impuro, pecador e estás condenado ao fogo eterno. Isto por crimes que foram cometidos antes do teu tempo, por crimes que foram cometidos por outras pessoas, o pecado original. (...) Mas também tenho boas noticias, se fizeres como eu mando e obedeceres a estas 10 regras, vais ter uma recompensa para além do que possas imaginar."

O medo do inferno que é incutido às crianças é algo de muito muito perverso. E espero que esta falácia seja óbvia a todos.

A bíblia é claramente a primeira das duas hipóteses. Custa-me saber que há homens meus contemporâneos que a tomam por algo diferente.
Quanto ao Saramago, não o chamaria ignorante e não me atreveria a dizer que ele não conhece a bíblia. Agora, a abordagem dele é indício de um homem velho e amargo, o que não o torna necessariamente errado.

Montag, 19. Oktober 2009

Manifesto anti-Saramago

Como grande parte de vós saberá, não tive nunca uma educação religiosa nem sou particularmente dado a beatices, apesar do meu interesse nas diversas religiões, sobretudo as monoteístas.
Contudo, o nosso único prémio Nobel da literatura - sinceramente, ainda hoje, nem percebi porquê... - parece não deixar de dar provas de que não só é ateu, que bom para ele, mas que deseja fazer uma cruzada de ignorância contra as religiões bíblicas.
Pior que uma cruzada medieval de fanatismo religioso é a cruzada ignorante, em pleno século XXI, de um fanático ateu que devia estar calado, não opinar sobre aquilo que desconhece, e perceber que ter um Nobel não lhe dá infalibilidade - para isso, estupidamente, teria de ser Papa.

Então o nosso amigo pretensio e inflado acha que a Bíblia é um manual de perversidade, de maldade, daquilo que de pior há na «natureza humana».

Antes de mais, aluda-se ao uso da expressão filosófica que Saramago usa, reconhecida até pelos metafísicos existencialistas como filosoficamente errada por pressupor um conjunto de características comuns a todos os seres humanos, inalteráveis e eternas. O que por si pressupõe que essa humanidade homogénea não se possa alterar, e que tenha sido já "criada" assim - mazinha!
Ergo, o nosso amigo ateu está a dizer que a Bíblia constitui um manual de maldade para uma humanidade naturalmente má. E ao fazê-lo, descuida-se com ideias cliché metafísicas:
1) Descuida-se com a pressuposição de que há uma «essência» humana eterna.
2) O que pressupõe o criacionismo.
3) Descuida-se ao arrogar-se o direito de fazer juízos de valor sobre o conteúdo de um texto que não conhece, aparentemente, o suficiente.
4) Descuida-se, ao apreciar condutas sugeridas na Bíblia como «boas» ou «más» - porque, a não ser que Saramago seja leitor assíduo dos filósofos morais mais influentes do pós-guerra, libertos de quaisquer tendências divinistas na sua filosofia ética, está a apreciar a Bíblia de acordo com os critérios do Bem ou do Mal da sua Civilização. Que são os critérios de fundamento metafísico e até teológico legados pelo Cristianismo baseado no texto religioso que critica.
5) Descuida-se, em geral, enquanto velho senil, incontinente e parvo que é.

É verdade que na Bíblia encontramos coisas simpáticas como o massacre dos primogénitos egípcios para libertar os judeus (Êx.,11, 5), a prescrição da exclusão de homens bastardos ou castrados das assembleias religiosas ( Deu., 23, 1-2), a exclusão de leprosos da comunidade (Num., 5, 2), a prescrição da pena de morte para adúlteros e homossexuais (Lev., 20).
Ora, a maior parte dos fanáticos ateus é cega o suficiente para se ficar por aqui, pelo Antigo Testamento, sem preocupações de interpretação ou de compreensão.
E que tal uma excursão pelo Novo Testamento?
Vemos a maldade de afirmar a humanidade como a luz do mundo (Mateus, 5, 14); a crueldade da rejeição da vingança (Mateus, 5, 38); a perversidade de afirmar as crianças como a esperança de Deus (Mateus, 19, 13); vemos o horror da proclamação da clemência como valor em si (João, 8, 7) e vemos a repugnância do perdão (Lucas, 17, 3).

Uma pessoa pode não concordar com grande parte do código moral contido na Bíblia. Mas ninguém deve ter o atrevimento de julgar um livro dessa dimensão e profundidade como um todo, dizendo que é tudo muito bom ou tudo muito mau.
O pior é que Saramago julga as partes menos simpáticas da Bíblia de acordo com preceitos das partes mais bonitas, que vagueiam no nosso subconsciente colectivo há dois mil anos.
É preciso ser-se um ignorante completo para fazer aquele tipo de afirmações.
Entristece-me que seja aquele o nosso único Nobel da literatura. Mas se quer escrever, escreva e cale-se.

Donnerstag, 25. Dezember 2008

A solidão em Kierkegaard

"Na tumultuosa vida de de sociedade, é possível pecar por ignorância, mas esse pecado tem desculpa; não assim para aqueles que pecam contra a solidão pacífica, porque esta é sagrada. Tudo quando perturbar a solidão ficará marcado com o sinal da culpa, e o casto comércio do silêncio, uma vez ofendido, nunca mais perdoará."

S. Kierkegaard, O Banquete

Sonntag, 25. Mai 2008

Um dos meus livros preferidos

E foi assim que, nessa noite, adormeci deitado na areia, a milhares de milhas de qualquer local habitado. Sentia-me mais isolado do que um náufrago numa jangada no meio do oceano. Podem, portanto, imaginar qual não foi a minha surpresa quando, ao nascer do dia, fui acordado por uma vozinha que dizia:
-Se faz favor... desenha-me uma ovelha!-O quê?-Desenha-me uma ovelha...
Pus-me de pé de um salto, como se tivesse sido atingido por um raio. Esfreguei os olhos energicamente. Olhei com toda a atenção. E vi um menino verdadeiramente espantoso, que me observava com um ar muito sério…

Mittwoch, 12. März 2008

Acabei-o

Venham buscá-lo fresquinho e a cheirar a vitória:)

Samstag, 1. März 2008

Asteri

Caso não o saibam, já há quatro meses que ando a escrever um livro. Na verdade, é mais um conto comprido.
Retrata a história de um homem que fica preso nos seus sonhos, e neles acorda sem saber quem é. Nas suas viagens lutará para encontrar a sua própria identidade, o seu lugar no novo mundo de que nunca se livrará.
Viaja mesmo do pior dos pesadelos de toda a Humanidade para o Sonho mais harmonioso, para a perfeição.
E escrevo isto hoje porque... Estou quase a acabá-lo. Já comecei o penúltimo capítulo.
Quem estiver interessado no livro, peça-mo, e em breve darei uma cópia.

Sonntag, 3. Februar 2008

Maias para crianças?

No outro dia, quando estava numa paragem de autocarro, não pude deixar de reparar num anúncio do semanário Sol, que fazia publicidade a uma adaptação dos Maias de Eça de Queirós para crianças, feita pelo Luis Peixoto.
Quem já tiver lido Os Maias, há de perceber de onde veio o meu espanto - aliás, porque é que toda a rua desatou a olhar para mim quando me viu a dar uma gargalhada enorme e descontrolada quando fiz a ligação:
Os Maias tem como tema central um incesto. Duvido que, independentemente de quão fofinhos os desenhos sejam, as criancinhas inocentes de 4 anos ou assim não perguntem aos papás:
"Papá. O que é adultério?(com enormes olhos de bambi)" "Mamã, o que é incesto?" "mamã, o que quer dizer "aos dezoito anos já tinha o seu bastardozinho"?"
Péssima escolha de livro para fazer a adaptação. É um livro excelente para gente crescida, mas pouco ou nada podem aprender miúdos com aquilo.

Samstag, 2. Februar 2008

De "Candide"

Ultimamente, ando a ler "Candide", de Voltaire, ou François-Marie Arouet. Já que foi uma obra escrita com todo o espírito do iluminismo, "Candide" tem uma fortíssima componente filosófica. Mas não é por isso que a obra me fascina, apesar de a filosofia transmitida ser muito interessante. O próprio estilo de Voltaire, embebido em ironia e humor, leva leitores a violentos ataques de riso 250 anos depois.
Ainda vou a meio do livro, mas posso fazer um resumo do que tem acontecido: Candide, é um jovem que vive no castelo do Barão de Thunder-ten-tronckh, que, como Voltaire escreve, é o barão mais poderoso da Vestfália, pois "o seu castelo tinha uma porta e janelas". Candide é o seu sobrinho, filho da sua irmã que se recusou casar porque o seu amado só podia provar a ascendência pura e nobre "apenas" até à sexta geração.
No castelo mora também o sábio Pangloss, que ensina a Metafisicó-teologó-cosmolonigologia, que a bela Cunegonde, a amada de Candide, encontra uma vez no jardim a dar uma lição de "física experimental" à criada. Fascinada com o que tinha visto, Cunegonde pratica o mesmo com Candide, sendo apanhados os dois na mesma altura pelo barão, que não é mais do que o pai de Cunegonde.
Candide é expulso a pontapé do paraíso e viaja, vendo os terrores da guerra, aldeias ávaras saqueadas e queimadas pelos búlgaros e aldeias búlgaras às quais os ávaros tinham dado o mesmo tratamento, e acaba por ser recrutado à força para o seu exército. Um dia, como soldado, Candide decide dar um passeio para fora do campo, é apanhado, declarado desertor e castigado com seis mil vergastadas.
Numa certa batalha, deserta mesmo e viaja para a Holanda, onde trabalha para um fabricante holandês de tapetes persas. Um dia, ao ver um pedinte a morrer na rua de sífilis, fica atónito ao saber que é na verdade Pangloss, que tinha sido infectado pela criada, que tinha sido infectada por um franciscano que tinha por sua vez recebido a sífilis de uma velha condessa. Essa devia a doença a oficial, que a devia a uma marquesa, que tinha sido infectada por um pagem que tinha sido contagiado por um jesuíta.
Depois de se tratar de Pangloss, viajam os três (Candide, Pangloss e o fabricante) para Lisboa em negócios.

E é nessa parte que eu fiquei. Como se pode ver, toda a escrita de Voltaire gira à volta do absurdo, do irónico, do sarcástico, do hilariante, da crítica. É o meu sentido de humor.