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Donnerstag, 23. September 2010

Verdade Universal e Insana n.º 4


Verdade Universal e Insana n.º 4:

«Os cães são como lobos sem pinta»

Pensem em lobos maus. Por piores que sejam, terão de admitir isto: São maus em conjunto, vivem em estruturas organizadas, cultivam valores de força e protecção da comunidade. Correm e caçam livres, são corajosos, e a sua crueldade valeu-lhes a sua elevação a pequenos deuses da noite e da guerra.

Pensem agora em cães patetas. Poderá alguma criatura ser mais patética que um cão? vemos neles lealdade, mas na verdade são apenas servis; chocam contra coisas; e agitam alegremente a cauda como se fosse o estandarte da sua estupidez. São ciumentos. Ladram de medo quando se deparam com coisas que lhes são desconhecidas. Em suma, as piores características dos cães são as piores características do Homem. Não admira que sejam melhores amigos.
Somos todos patetas. Mas estranhamente encantadores.

Dienstag, 31. August 2010

O Regresso


Vi-te nascer com um nome que não era o teu.
Vi-te florescer e perecer no pó e a definhar numa qualquer letra incógnita, num livro escondido na biblioteca dos teus pais.
E sempre ressuscitaste. Nem sabia como. Renascias, com o mesmo nome, que não era o teu, num verso arrancado à tua existência - segregado pela tua alma envelhecida com as dores de um parto muito tardio.

Onde estás tu agora? Mostra-te; respira; respira-te! Vive de novo, porque te cheguei a compreender como ninguém e as horas que conto para o teu renascimento são horas que contam os loucos para o meu fim.

Ingrato! Volta para mim, cobarde! Por vezes oiço-te os vítreos passos apressados, escapando de mim nas sombras pensantes; vejo os teus fugitivos contornos ígneos na loucura alheia e na alegria efervescente de quem amo; cheiro a tua presença breve e frágil, ó cisne de cristal no rebentar da onda, ó gaivota de papel no rugido da tempestade!

Cavaleiro errante! Poeta prematuro! Renasce!
Dança na ponta dos meus dedos, profeta mudo de palavras vazias!
Falso Moisés de mares de tinta! Regressa a mim!
Filho bastardo do sonho e da insónia! Onde estás?

- «Assina, Mestre, e a ti volto - como o filho pródigo ao pai regressa.»

Rafael Silveira Neves

Sonntag, 11. Juli 2010

Do direito e do Mundial

«As empresas a quem não dá jeito nenhum que a Espanha ganhe

A febre chamada Mundial levou determinadas empresas a lançarem campanhas condicionadas pela prestação da selecção espanhola na África do Sul. Agora, o aumento das probabilidades de a Espanha se sagrar campeã mundial está a gerar uma onda de preocupação. Empresas como a Media Markt e a Toshiba bem podem desejar que Espanha perca amanhã frente à Holanda. Caso contrário, serão obrigadas a reembolsar os seus clientes devido às suas campanhas de marketing agressivas.

A associação de consumidores espanhola Facua já alertou os clientes para que façam as suas reclamações caso as empresas não cumpram com o prometido.

A Media Markt é apenas uma das empresas que pode sair prejudicada. No entanto, a empresa tem chamado a atenção para todas as letras da campanha, que dizia que a empresa só devolveria o dinheiro aos seus clientes se Espanha ganhasse todos os jogos. É das poucas que pode festejar a vitória sem preocupações: a ressalva "ganhar todos os jogos" permitiu-lhe respirar de alívio logo no primeiro jogo da "Roja" contra a Suíça. Alguns consumidores ainda reclamaram, mas a Facua esclareceu: na campanha da Media Markt não houve publicidade enganosa nem "abuso de letra pequena": o texto do slogan era "muito claro".

Outras empresas não foram tão cautelosas como a Media Markt. A Panda Security, que comercializa antivírus, ofereceria aos seus clientes o mesmo número de licenças do produto que tivessem comprado em qualquer loja durante os meses de Abril, Maio e Junho. A Tom Tom, fabricante de GPS, lançou uma campanha com um apelativo "Se a Espanha ganhar, devolveremos o seu dinheiro": incluía o reembolso de quatro modelos mediante uma vitória espanhola. A PC City prometeu oferecer 10 euros por cada golo de Espanha no Mundial (excepto os que resultassem de penalti) a quem comprasse uma televisão de pelo menos 32 polegadas com tecnologia Led. A Toshiba prometeu reembolsar os compradores de televisões e de portáteis de gama média e alta adquiridos entre 10 de Abril e 10 de Junho. Com essa campanha contava vender 20 mil unidades, o dobro do habitual. Se Espanha ganhar, pode ficar a perder. A cadeia de hipermercados Carrefour não ficará melhor: Espanha ganha e a cadeia perde, nada mais, nada menos, do que um milhão de euros.»

por Sívia Caneco
in i

Donnerstag, 10. Juni 2010

Revisão constitucional


Proposta de alteração ao n.º 1 do artigo 33.º da Constituição da República Portuguesa:


Artigo 33.º
(Expulsão, extradição e direito de asilo)

1. Não é admitida a expulsão de cidadãos portugueses do território nacional, com excepção dos cidadãos mencionados nas alíneas seguintes:

a) S.A.R. o Duque de Bragança, Senhor Dom Duarte;
b) S.A.R. a Duquesa de Bragança, Senhora Dona Isabel;
c) S.A.R. o Príncipe da Beira, Dom Afonso Santa Maria de Bragança;
d) S.A. a Infanta Dona Maria Francisca de Bragança;
e) S.A. o Infante Dom Dinis Santa Maria de Bragança;
f) S.A. o Infante Dom Miguel de Bragança, Duque de Viseu;
g) S.A. o Infante Dom Henrique de Bragança, Duque de Coimbra.


(publicado originalmente no Moção de Censura)

Sonntag, 23. Mai 2010

Surrealismo - II



Ele poderá jurar que não te ama;
que os seus passos são fruto
da vontade inquebrável do dito Homem
e não gotas nebulosas de licor de éter
harpejadas por um festivo e pré-determinado destino.

Ele poderá jurar que não te ama;
que o escarlate e ridente Sol do amanhecer
não abençoa a Terra turva:
as nuvens gotejantes
de orvalho escarlate e ridente
são rubis.

E poderá jurar que não te ama;
e que a Terra turva tornada tiara imperial
do mecanizado Universo há muito desenhado
não foi colocada nele para virar e revirar, dançante,
e velar terna pelo radiante e generoso Sol:
grata pela bênção diária.

Poderá jurar que não te ama:
E no entanto, move-se.

Rafael Silveira Neves

Samstag, 17. April 2010

Verdade Universal e Insana n.º 2

Verdade Universal e Insana n.º 2:

«Entre o Peixe-Espada e o Peixe-Parede, ou nadas ou afogas-te

É verdade. Qualquer um que esteja tramado de qualquer modo terá sempre de estrebuchar como um peixe fora da água da normalidade circunstancial. Terá sempre de fingir que sabe nadar enquanto se afunda rogando pragas, degradado, mas sempre revestido num manto imperial de artificial dignidade. Afoga-se se não conseguir encontrar uma forma inteligente de esquivar-se aos peixinhos.

Ou aprende a nadar e manda o Peixe-Espada e o Peixe-Parede irem dar banho ao Peixe-Cão.

Ou se torna num tubarão e come o Peixe-Espada e o Peixe-Parede.

Ou então transforma-se num Peixe-Buldozer e dá cabo do Peixe-Parede.

Ou então transforma-se num Peixe-Rato e esburaca o Peixe-Parede, formando depois uma aliança com o Peixe-Cão contra o Peixe-Gato, vil e tirânico usurpador dos mares e assassino de massas do povo dos peixinhos.(sei que referir este traidor é uma massada, mas a menção do nome do ignóbil Peixe-Gato e do Ictiofagio-canibalismo que vivemos serve-me para demonstrar que, num mundo em que o peixe come o peixe, que come o peixe, que come o outro peixinho que comeu o peixao, é verdade - o Homem é o Peixe do Homem.)

Ou então pede ao Peixe-Balão para lhe dar uma ajuda e uma boleia para longe, depois festejando com ele a noite do Peixe-São-João, mesmo não sendo crente.

Ou então transforma-se num Peixe-Escudo para ensinar ao Peixe-Espada quem manda.

Ou então pede ao Peixe-Aranha para lhe fazer uma rede e apanhar o Peixe-Espada e o Peixe-Parede e os comer ao jantar, grelhadinhos com um bom vinho branco.

Ou então transforma-se num Peixe-Porco e (peço desculpa) caga-se para o Peixe-Espada e o Peixe-Parede.

Ou então afoga-se.

As possibilidades são muitas. E raramente se verifica uma total ausência e soluções para escaparmos a situações aparentemente inescapáveis.

Mittwoch, 14. April 2010

HORTOR

Uni-vos! Republicanos, estadistas e democratas em geral

Como pode este governo atribuir tolerância de ponto aquando da visita papal!

E ao que sei escolas públicas vão mesmo encerrar!

Meus caros recuámos à outra senhora.


E para terminar eu pergunto, doutos colegas de direito pode processar-se o socra(s)te por danos à imagem e bom nome de Sócrates ?

Mittwoch, 31. März 2010

Há uma certa sensação associada a estas coisas, elas podiam levar-te a histórias. Mas tudo o que lembras é que a tua nostalgia te engana, nada foi como o reminesces.

Montag, 22. März 2010

Os sebastiacas trombos não deixaram partir

Os sebastiacas trombos não deixaram partir
Portugal para o Brasil.
Vagos ficamos da amurada aos tombos
Para a largada rombos
Do corpo de Portugal.

Mas a Hora deixada ao sono vil
Dos que provendo tudo podem nada
Mais que o fogo senil
Do Império Final,
Cintila na amurada:
Nao há Portugal e Brasil.
Brasil é Portugal.

---
Mário Cesariny (1923-2006)

Montag, 22. Februar 2010

Secundum natura

A homossexualidade e a Natureza. Será paradoxal dizer que a primeira ultraja a segunda; ou que a primeira é contra natura. Como pode isso ser possível se é ela, Natureza, que inspira estes homens e estas mulheres (lêde homossexuais) a tais práticas? Poderia ela ditar aquilo que a degrada? Não. Os homossexuais servem-na, assim, tão bem como nós, heterossexuais, a servimos e talvez a sirvam ainda mais santamente do que nós. A propagação é apenas, só e tão só, uma tolerância da Natureza. Como poderia ela ter preceituado um acto que a priva dos direitos da sua omnipotência? A propagação é apenas uma consequência das suas primeiras intenções. E que novas construções, refeitas pela sua mão, se a nossa espécie estivesse absolutamente destruída, se tornariam de novo em intenções primordiais cujo acto seria bem mais lisonjeador do seu orgulho e poder?

Através destes processos, a extinção total da raça humana nada mais é do que um serviço prestado à Natureza. Numa palavra, sobre todas as coisas eu parto sempre de um princípio: se a Natureza proibisse, ou se fossem contra natura, as práticas homossexuais, permitiria que quem as executa encontrasse nelas tanto prazer? Não. É impossível que ela possa tolerar o que verdadeiramente a ultraja. Sendo a destruição natural, uma das principais leis da Natureza (vede, recentemente, o Haiti ou a Madeira, aqui ao lado!), nada do que seja a extinção da humanidade por vias homossexuais pode ser considerado contra natura. Se não é contra natura, então serve-a. Como poderia alguma vez uma acção que tão bem serve a Natureza ultrajá-la?

É típico do Homem acreditar que a Natureza pereceria se a nossa maravilhosa espécie desaparecesse da face da Terra, ao passo que a destruição inteira desta espécie, dando à Natureza a faculdade criadora que ela nos cede, lhe devolveria as energias que lhe retirámos, propagando-nos. Mas que inconsequência!

Em suma, fica assim demonstrado que a propagação não é, de forma alguma, o objectivo da Natureza; resume-se a uma tolerância. Facilmente se conclui, então, que a homossexualidade NÃO é contra natura é sim secundum natura. Serve-a!

(Este escrito é baseado e adaptado, à realidade portuguesa, a partir dos ensinamentos de um grande Mestre da Ala Francesa.)

Samstag, 20. Februar 2010

Der Nachgeborene

Ich gestehe es: ich
Habe keine Hoffnung.
Die Blinden reden von einem Ausweg. Ich
Sehe.

Wenn die Irrtümer verbraucht sind
Sitzt als letzter Gesellschafter
Uns das Nichts gegenüber.


O que nasceu tarde

Confesso: não
tenho qualquer esperança.
Os cegos falam de uma saída. Eu
vejo.

Quando os erros estiverem gastos,
senta-se à nossa frente, como última companhia,
o Nada.

Bertolt Brecht

Donnerstag, 18. Februar 2010

Estudantes: tomem lá disto!

Enquanto, cá, se atiram pedras ao Primeiro-Ministro, sem ele ter sido, sequer, julgado, do outro lado da barricada, na dita Monarquia Constitucional (Reino de Espanha), o antigo Primeiro-Ministro Aznar:


Sem bigode; mas com pêlo na venta.

Mittwoch, 17. Februar 2010

A Cultura do Sofrimento

Em posts passados viram-me a mim, ateu, a defender o legado moral do Cristianismo.
Se bem se recordam, expliquei que as noções éticas básicas da nossa Civilização derivam da palavra do Novo Testamento, que revogou o "temor e tremor" a Deus da lei mosaica e institui como princípio fundamental o amor ao próximo, a tolerância, a dignidade da pessoa humana, e a clemência. Sem a formatação de pensamento que o Cristianismo nas suas duas variantes principais da Europa Ocidental forneceu na infância e juventude de praticamente toda a gente durante séculos, as concepções morais defendidas pelos filósofos mais influentes desde o Humanismo não teriam existido.
Locke não se teria lembrado de um estado de natureza em que não existe sociedade e o Homem vive em paz, colhendo os frutos da terra, até conhecer o crime e a cobiça e ter de se organizar e do suor do seu rosto comer o pão, e ver-se forçado a instituir um contrato social em que abdica da sua liberdade absoluta, que todos os homens terão em igual medida, para dar corpo a uma sociedade com regras aplicáveis a todos. Isto não soará vagamente ao pecado original e à expulsão de Adão e Eva do Paraíso? A corrupção das leis da natureza levando à justificação das leis do Homem?
Kant não se teria lembrado do imperativo categórico sem os ensinamentos de Cristo: não faças aos outros o que não queres que te façam a ti, por exemplo.
Em suma, o Cristianismo deu-nos valores éticos incontornáveis que hoje, em grande parte, tomamos por absolutos independentemente de sermos crentes ou não - pura e simplesmente, porque fazem parte da nossa cultura e todo o nosso pensamento neles é formatado, como foi influenciado o pensamento das gerações antes de nós.
Contudo, não é da importância do cristianismo no pensamento de um ou outro que vos quero falar. Já noutras alturas vos disse o que acho de positivo na mundividência cristã, que tanto influenciou a nossa civilização. Mas hoje, vamos olhar para o outro lado da moeda. Hoje, quero dizer-vos aquilo que acho de mais abominável no Cristianismo, sobretudo no Catolicismo, e que considero que deixou cicatrizes graves e feias na nossa cultura.

Chamo-lhe a Cultura do Sofrimento.

O ponto de partida tem de ser este: Como as restantes religiões monoteístas, o Cristianismo - e em particular, o católico - é uma religião exigente. Deus - ou, para quem Deus seja secundário, a Igreja Católica - espera muito de ti, coisas difíceis, abstinências duras, comportamentos correctos a toda a hora, e muitos, muitos sacrifícios pessoais como prova de fé. É uma religião que coloca muita pressão sobre os seus crentes. (ex: Mateus, 5, 48: «Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial.»)
A violação dos deveres impostos pelo vínculo a Deus e à Igreja tem consequências não só na vida eterna, mas na vida temporal: o castigo perpétuo e constante pelas infracções cometidas é a culpa, que atrofia, a longo prazo, o estado de espírito de todos os que sentem que estão a violar os seus deveres morais e religiosos.
Ora, ainda que se assista a um grossamento das fileiras do ateísmo no último século, a verdade é que o sentimento de culpa está para ficar; e 2000 anos de educações marcadas pelas compreensões cristãs daquilo que é eticamente correcto só deixaram mais vincada na nossa mentalidade a - falsa - naturalidade do sentimento de culpa sempre que nos pareça que não fizemos sacrifícios suficientes ou que não conseguimos estar à altura do que era esperado de nós.
Vivemos numa Cultura de Sofrimento; numa cultura que se alimenta da ideia de que todo o sacrifício é um bom sacrifício, e que uma pessoa que se sacrifica até aos ossos e se dedica exclusivamente a servir os outros e a torná-los felizes é uma pessoa generosa e altruísta, e não um idiota. Serei o único a pensar que o facto de, na nossa civilização, palavras como selfless têm conotação positiva é algo de absolutamente perverso?
É isso que o Cristianismo trouxe de pior: a relativização do sofrimento individual face à satisfação alheia, de Deus, da Igreja, da Família, ou da comunidade. Alguém que não estiver disposto a aturar todo e qualquer sacrifício é considerado um egoista; e alguém que não se vir na obrigação de sofrer para agradar aos outros é posto de lado.
Vivemos numa cultura com um lado perverso: aquele que nos diz que, quanto mais nos reduzirmos e eliminarmos em prol dos outros, melhores pessoas somos; e que o sacrifício e o sofrimento, por mais inúteis que possam ser, desde que bem intencionados, são algo de bom.


«Nosso Senhor foi espancado, torturado, chicoteado, pontapeado, cuspido, humilhado e pregado a uma cruz para lá morrer em agonia - e fez isto por ti e por todos nós. E tu, meu egoísta nojento, o que estás disposto a sofrer pelos outros?»

Dienstag, 16. Februar 2010

Onde é o Carnaval?


Não é em Loulé, tão-pouco em Torres Vedras. Não é em Lisboa, nem no Rio de Janeiro. O Carnaval é em Veneza. Ponto final! Nem sequer vou argumentar.

Freitag, 12. Februar 2010

Polvo à Lagareiro

---

Ingredientes:

- Um quilo e meio de polvo.
- Uma cebola.
- Duas folhas de louro.
- Seis dentes de alho.
- Meio pimento vermelho.
- Meio pimento amarelo.
- Meio pimento verde.
- Um quilo de batatas.
- Um raminho de salsa.
- Uma colher de chá de vinagre.
- Uma pitada de sal.
- Uma pitada de pimenta preta em grão.


Modo de preparação:

Cozer o belo do polvo numa panela de pressão, juntamente com a cebola inteira, com uma das folhas de louro, com a pitada de sal e com a pitada de pimenta, durante meia horinha. Depois do polvo, de quilo e meio, estar cozido toca a retirar o molusco da panela e colocar o dito cujo numa travessa de barro; fica melhor! Posto isto é só descascar os alhos, cortar os pimentos em tiras não muito finas, juntar as batatinhas, com a pele, e todos os restantes ingredientes, à travessa. Para embelezar o quadro, pode-se polvilhá-lo com salsa. Por fim, é só regar o prato com o azeite e colocá-lo no forno durante quarenta minutinhos. Quando estiver assado, é giro salpicá-lo com o vinagre e servir. Porém, pode tornar-se este prato mais suculento e apetitoso colocando, à volta do polvo, uns pedacinhos de bacon e um cravinho, isto tudo antes de levar o polvo ao forno, logicamente.

Montag, 18. Januar 2010

«Vor dem Gesetz» - «Diante da Lei»

Diante da Lei há um guarda. Um camponês apresenta-se diante deste guarda, e solicita que lhe permita entrar na Lei. Mas o guarda responde que por enquanto não pode deixá-lo entrar. O homem reflete, e pergunta se mais tarde o deixarão entrar. “É possível” , disse o porteiro, “mas não agora”. A porta que dá para a Lei está aberta, como de costume; quando o guarda se põe de lado, o homem inclina-se para espiar. O guarda vê isso, ri-se e lhe diz: “Se tão grande é o teu desejo, experimenta entrar apesar de minha proibição. Mas lembra-te de que sou poderoso. Eu sou somente o último dos guardas. Entre os salões também existem guardas, cada qual mais poderoso que o outro. Já o terceiro guarda é tão terrível que não posso suportar seu aspecto”. O camponês não havia previsto estas dificuldades; a Lei deveria ser sempre acessível para todos, pensa ele, mas ao observar o guarda, com seu abrigo de pele, seu nariz grande e como de águia, sua barba longa de tártaro, rala e negra, resolve que mais lhe convém esperar. O guarda dá-lhe um banquinho, e permite-lhe sentar-se a um lado da porta. Ali espera dias e anos. Tenta infinitas vezes entrar, e cansa ao guarda com suas súplicas. Com freqüência o guarda mantém com ele breves palestras, faz-lhe perguntas sobre seu país, e sobre muitas outras coisas; mas são perguntas indiferentes, como as dos grandes senhores, e para terminar, sempre lhe repete que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que se abasteceu de muitas coisas para a viagem, sacrifica tudo, por mais valioso que seja, para subornar o guarda. Este aceita tudo, com efeito, mas lhe diz: “Aceito-o para que não julgues ter omitido algum esforço”. Durante esses longos anos, o homem observa quase continuamente o guarda: esquece-se dos outros, e parece-lhe que este é o único obstáculo que o separa da Lei. Maldiz sua má sorte, durante os primeiros anos temerariamente e em voz alta; mais tarde, à medida que envelhece, apenas murmura para si. Retorna à infância, e, como em sua longa contemplação do guarda, chegou a conhecer até as pulgas de seu abrigo de pele, também suplica às pulgas que o ajudem e convençam ao guarda. Finalmente, sua vista enfraquece-se, e já não sabe se realmente há menos luz, ou se apenas o enganam seus olhos. Mas em meio à obscuridade distingue um resplendor, que surge inextinguível da porta da Lei. Já lhe resta pouco tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências desses longos anos se confundem em sua mente em uma só pergunta, que até agora não formulou. Faz sinais ao guarda para que se aproxime, já que o rigor da morte endurece seu corpo. O guarda vê-se obrigado a baixar-se muito para falar com ele, porque a disparidade de estaturas entre ambos aumentou bastante com o tempo, para detrimento do camponês. “Que queres saber agora?”, pergunta o guarda. “És insaciável”. “Todos se esforçam para chegar à Lei”, diz o homem ; “como é possível então que durante tantos anos ninguém mais do que eu pretendesse entrar?”. O guarda compreende que o homem já está para morrer e, para que seus desfalecentes sentidos percebam suas palavras, diz-lhe junto ao ouvido com voz atroadora: “Ninguém podia pretender isso, porque esta entrada era somente para ti. Agora vou fechá-la”.



Franz Kafka

Samstag, 9. Januar 2010

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O Cosme irá pronunciar-se, em jeito de "day after", por sentir que a turba anda mais equivocada do que o usual, mas depois jura que é a última vez porque já deixou de ser socrático o suficiente (ou masoquista) para encaminhar a grei no sentido da luz e do Sol já que ao que parece estão tão quentinhos na caverna (agora se calhar até já têm o Avatar em 3D e tudo... tempos modernos)

Freitag, 4. Dezember 2009

Surrealismo - I


Vagas memórias de vagas nebulosas
Vagueiam, turvas, estalando como cometas;
Devagar, divagando e navegando poetas;
Tecedo-se em espumas de sonetos e glosas...




- Rafael Silveira Neves, 12/2009

Dienstag, 17. November 2009

Freitag, 6. November 2009

Ausência


O que é isto?

Descobrimos a Luz nos reflexos do tumultuoso rio do Espírito e enchemos um frasco de perfume para nos recordarmos. A fonte secou... No meio da Escuridão usámos o frasco para nos encher a Alma. Então levantei-me para evitar que adormecesse e esquecesse... Mas quando me deitei tinha adormecido... Levantei-me calmamente e num beijo perguntei, lembras-te de mim?

André Cunha