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Mittwoch, 25. Mai 2011

«Eu cá sou de opinião que não cabe aos juízes, ao tempo civil e ao templo civil, à República, encorajar a poesia (...) Só cabe ao Deus que morreu.»

Herberto Hélder

Samstag, 5. Februar 2011

Mitologia judaico-cristã e greco-romana.




«O Senhor viu o quanto havia crescido a maldade dos homens na terra e como todos os projectos de seus corações tendiam unicamente para o mal. Então o Senhor arrependeu-se de ter feito o homem na terra e ficou com o coração magoado. E o Senhor disse: "vou extreminar da face da terra o homem que criei e com ele os animais, os répteis e até as aves do céu, pois estou arrependido de tê-los feito". (...) durante 40 dias o dilúvio se abateu durante a terra. As águas cresceram e ergueran a arca, que se elevou acima da terra. As águas tornaram-se violentas e aumentaram muito sobre a terra de modo que a arca começou a flutuar na superfície das águas. As águas cresceram tanto sobre a terra que cobriram as montanhas mais altas que estão debaixo do céu. (...) Pereceram todas as criaturas que se moviam na terra, tanto aves, como animais domésticos, como animais selvagens, enfim todos os seres que fervilham sobre a terra, e todos os homens.» (GEN., 6-7)



«Após a geração de prata [do Homem, que teve na mitologia greco-romana quatro eras, correspondentes ao seu valor e bondade: a geração de ouro inocente, de prata, menos valiosa, e...] seguiu-se a terceira, a de bronze, de índole mais feroz, mais pronta para as horrendas armas, mais ainda não criminosa. Esta última é a do duro ferro. De súbito, todo o acto nefando irrompe nesta idade de metal menos valioso. Fugiram o pudor, a sinceridade, a lealdade, e no lugar destes, sucederam-se-lhes o logro, a traição, e as insídias, e a violência, e a criminosa paixão por possuir. (...) Já nem apenas as searas e os alimentos devidos se exigiam ao rico solo, mas descem pelas entranhas da terra abaixo, desatam a escavar riquezas que aquela ocultara e movera para junto das sombras do Estígio, estímulos para o mal. Já o pernicioso ferro de lá surgira, e o ouro, mais pernicioso que o ferro. E surge a guera, que luta recorrendo a ambos, e, com mão ensanguentada, brande as estrepitosas armas. Vive-se na rapina. O hóspede não está a salvo do hospedeiro, nem o sogro do genro: até a afeição entre irmãos é rara. O homem maquina a morte da esposa, e esta a do marido. As aterradoras madrastas misturam amarelentos venenos. O filho, antes do tempo, inquire sobre a idade do pai (...)
Então Júpiter quebrou de novo o silêncio [na Assembleia dos Deuses] com tais dizeres: (...) "A má reputação desta época chegara-me aos ouvidos. Desejando que fosse falsa, deslizo do píncaro do Olimpo e percorro as terras, deus sob uma aparência humana. Longo seria enumerar quantas malfeitorias eu descobri por toda a parte: a verdade era pior que a má reputação. (...) Julgá-los-ias conjurados para o crime: todos devem sofrer, quanto antes, o castigo que merecem. É a minha sentença." (...) Este convoca os rios. Depois de eles entrarem no palácio do seu rei, diz: "não temos tempo a perder com longas exortações. Derramai as vossas forças, abri as vossas mansões e, removidas todas as represas, lançai à rédea solta as vossas torrentes cá para fora" (...) Os rios transbordam e desabam nas planícies abertas, e arrastam colheitas e árvores, animais e gentes (...) Já o mar e a terra não ofereciam qualquer distinção: tudo não era mais que mar, mar a que faltavam costas (...) Sob as águas, as Nereides vêem pasmadas bosques, cidades, casas; golfinhos ocupam florestas e chocam contra altas ramagens, embatem e abanam os carvalhos. Nada o lobo entre as ovelhas, a onda leva fulvos leões, tigres leva a onda; de nada vale a força das fulminantes presas ao javali, ou velozes pernas ao cervo arrastado. E, após longamente procurar terra onde pudesse pousar, a ave vagueante vai no mar com as asas exaustas. O desatino desmesurado do mar sepultara montanhas, e vagas inéditas embatiam nos píncaros das serranias.»
(Ovídio, Metamorfoses, Livro I, versos 125-312)

Gostava apenas de salientar um pormenor que acho muito interessante. Apesar da semelhança das descrições do castigo da humanidade por um dilúvio, Ovídio escreveu as Metamorfoses antes do ano 8 d.C., pelo que é improvável que alguma vez tenha tido contacto com as crenças hebraicas, então apenas situadas num cantinho do Império quase não romanizado. Quer porque a Palestina se situava muito longe de Roma e da Grécia onde viveu e viajou, quer porque antes do Cristianismo, as religiões monoteístas eram muito reservadas e não tinham pretensões de expansão, pelo que não havia implantação apreciável de uma cultura judaica/judaico-cristã em Roma.

Acho apenas interessante que esta noção de uma era de pecado passado longínqua seguida por uma punição por dilúvio seja comum, aparentemente, a várias culturas e religiões da Antiguidade que não contactaram quase nada entre si.

Samstag, 6. November 2010

Julgamento


Num salão húmido de basalto coberto pela poeira legada pelas gerações das Eras do Mundo que se sucederam, pingava água gelada, algo ressonava, rangiam as dobradiças, e fungava impaciente o Juiz. Subiu ao estrado e sentou-se no cadeirão.
Todos se levantaram - os Autores, a sua defesa e o Réu.
Colocou os óculos, fungou, e leu:

«Após curta, irreflectida e arbitrária apreciação dos diferentes argumentos apresentados exclusivamente pelos Autores, o Tribunal decidiu condenar o Réu, D..., por quem nunca chegou a ter grande simpatia, à morte por esquecimento.»

Fungou e tossiu e fungou de novo. Os Autores e a sua defesa sussurravam palavras de alegria, o Réu aceitou tristemente o seu destino, e o advogado da sua defesa ressonava através da sua bocarra escancarada. Escorriam fetidamente gotas de água pelas estátuas e baixo-relevos negros, outrora lembranças do suspiro enamorado da Criação, hoje quebradiças testemunhas mudas da sua execução sumária, da farsa do seu julgamento.
O Juiz limpou o muco à manga da toga e continuou:

«Tendo o Juiz proibido toda e qualquer argumentação da parte do Réu, dada a sua insolência em permanecer doente, mudo e cego, e não tendo a sua defesa chegado a acordar, o Réu é considerado culpado pelos crimes que agora se passam a enunciar:»

O Velho estremeceu de frio e desespero, as suas pesadas algemas afundavam-se nas suas barbas brancas incomensuráveis que se iam fiando e desfiando em nuvens. Os seus pequenos olhos escuros gritavam mágoa, e a sua mágoa gritava de injustiça. E no entanto, seguiu-se a enumeração das atrocidades por que agora o sentenciavam. O Juiz tossiu e continuou:

«Infanticídio em massa de primogénitos; filicídio premeditado e preparado com particular perfídia; coacção a um pai para que matasse o próprio filho; sucessivos massacres por afogamento diluviano ou por bombardeamentos de enxofre e fogo; omissões que resultaram na morte dos seus seguidores nas mandíbulas de leões; incitamento à homofobia, à misoginia, à xenofobia; tortura em massa pelo sentimento de culpa e pelo terror de um suposto fogo; degradação dos Autores à ignorância e ao preconceito; burla espiritual ao convencer os Autores da existência de uma contraprestação fictícia pela vida de anhos que os coagia a levar; mentiras reiteradas, monumentais, universais e ruinosas com sequelas ainda por determinar no pensamento dos Autores...»

O Velho estremeceu de novo, eles não sabem o que estão a fazer. O Juiz prosseguiu:

«... e porque, e este foi o motivo determinante, qualquer papel do Réu no nosso novo mundo é impensável. Dispensamos quem nos criou a nós. A Nós, os Autores irados e foragidos, e a Nós, o Juiz débil e corrupto e câmara decadente da aplicação da anomia. Por termos sido tão maltratados, pensamos chegada a altura de exercer a injustiça popular e linchar o Pai, nesta mesma Sala. A Nossa era chegou. Seja Ele esquecido.»

E o Velho, doente, curvo, frágil, mirrado e espancado, teria chorado mais se pudesse ter visto o que lhe aconteceu. Mas era cego. E teria soluçado e dito últimas palavras, de conforto ou de despedida. Mas era mudo.
Esvaneceu-se. E as nuvens dissolveram-se, como se nunca tivessem existido.





Rafael Silveira Neves

Freitag, 2. Juli 2010

O Paradoxo de Epicuro: as raízes do ateísmo


«Se Deus quer impedir o mal, mas não consegue; então não é omnipotente.
Se Ele consegue impedir o mal, mas não quer; então não é benevolente.
Se Ele consegue e quer; então de onde vem o mal?
Se Ele nem consegue nem quer; então porque chamar-lhe Deus?»

Acerta na mouche, não acerta?

Freitag, 18. Juni 2010

à propos José Saramago


Como terá sido impossível escapar à atenção de algum, morreu hoje, pelo fim da manhã, José Saramago. E deste modo, quero antecipar-me a eventuais comentários dos meus colegas bloguistas e afirmar, sem reservas, que gosto de José Saramago, e especialmente de toda a sua arrogância.

Donnerstag, 17. Juni 2010

O Ídolo Pessoal


Algo que me repugna ultimamente é a forma como nós em Portugal, ao contrário do que se fez noutros países que passaram por regimes ditatoriais, branqueámos completamente aquilo que foi o Estado Novo, e esquecemos aquilo que o regime realmente foi.

Sugiro apenas que vejam, para começar, esta magnífica foto de sua Excelência, o Presidente do Conselho, o Senhor Professor Doutor António de Oliveira Salazar, no seu escritório. Alguém reconhece o senhor que está na fotografia - já agora, autografada! - sobre a secretária?

Sonntag, 25. April 2010

Preservativos ao Papa

Estes meus colegas do Porto gozam da minha total admiração e apoio por uma causa nobre : www.preservativospapa.blogspot.com


É muito triste que a Igreja trate desta questão com tanto pudorzinho e de forma tão enganadora, colocando em risco milhões de vida de fiéis em todo o mundo. Faz lembrar, de certo modo, aquilo que disse um célebre jornalista português há alguns tempos sobre a indústria do Tabaco: «é uma empresa que desenvolve um negócio antieconómico e absurdo que mata os seus melhores clientes». A Igreja está a chacinar seus crentes mais fervorosos, por beatismo. É o mesmo género de pensamento anacrónico e anti-científico que queimou gente que falava em átomos e em heliocentrismo. Não faz mal. Já pediram desculpa pela inquisição. Daqui a um século, estarão a pedir desculpa pela sua grosseira, boçal e tacanha ignorância que tanta gente tem vindo a massacrar no Terceiro Mundo.

Mas de pedidos de desculpa está a humanidade farta.

Gostava de ver se era possível ter estatísticas para saber quantos fetos foram abortados nos últimos 50 anos; e quantas pessoas morreram de HIV-SIDA no Terceiro Mundo por sombrios e inexplicáveis ditames do Vaticano. E aí era giro saber se a Igreja é mesmo guardiã da mensagem antropocêntrica e bondosa de Cristo (ex.: respeito pela vida humana, sei lá!...), ou se tem apenas vindo a desempenhar, nos últimos 1500 anos, o papel de Talho da sua própria Cristandade; e de carrasco do conhecimento, do progresso humano e da vida.

Mittwoch, 17. Februar 2010

A Cultura do Sofrimento

Em posts passados viram-me a mim, ateu, a defender o legado moral do Cristianismo.
Se bem se recordam, expliquei que as noções éticas básicas da nossa Civilização derivam da palavra do Novo Testamento, que revogou o "temor e tremor" a Deus da lei mosaica e institui como princípio fundamental o amor ao próximo, a tolerância, a dignidade da pessoa humana, e a clemência. Sem a formatação de pensamento que o Cristianismo nas suas duas variantes principais da Europa Ocidental forneceu na infância e juventude de praticamente toda a gente durante séculos, as concepções morais defendidas pelos filósofos mais influentes desde o Humanismo não teriam existido.
Locke não se teria lembrado de um estado de natureza em que não existe sociedade e o Homem vive em paz, colhendo os frutos da terra, até conhecer o crime e a cobiça e ter de se organizar e do suor do seu rosto comer o pão, e ver-se forçado a instituir um contrato social em que abdica da sua liberdade absoluta, que todos os homens terão em igual medida, para dar corpo a uma sociedade com regras aplicáveis a todos. Isto não soará vagamente ao pecado original e à expulsão de Adão e Eva do Paraíso? A corrupção das leis da natureza levando à justificação das leis do Homem?
Kant não se teria lembrado do imperativo categórico sem os ensinamentos de Cristo: não faças aos outros o que não queres que te façam a ti, por exemplo.
Em suma, o Cristianismo deu-nos valores éticos incontornáveis que hoje, em grande parte, tomamos por absolutos independentemente de sermos crentes ou não - pura e simplesmente, porque fazem parte da nossa cultura e todo o nosso pensamento neles é formatado, como foi influenciado o pensamento das gerações antes de nós.
Contudo, não é da importância do cristianismo no pensamento de um ou outro que vos quero falar. Já noutras alturas vos disse o que acho de positivo na mundividência cristã, que tanto influenciou a nossa civilização. Mas hoje, vamos olhar para o outro lado da moeda. Hoje, quero dizer-vos aquilo que acho de mais abominável no Cristianismo, sobretudo no Catolicismo, e que considero que deixou cicatrizes graves e feias na nossa cultura.

Chamo-lhe a Cultura do Sofrimento.

O ponto de partida tem de ser este: Como as restantes religiões monoteístas, o Cristianismo - e em particular, o católico - é uma religião exigente. Deus - ou, para quem Deus seja secundário, a Igreja Católica - espera muito de ti, coisas difíceis, abstinências duras, comportamentos correctos a toda a hora, e muitos, muitos sacrifícios pessoais como prova de fé. É uma religião que coloca muita pressão sobre os seus crentes. (ex: Mateus, 5, 48: «Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial.»)
A violação dos deveres impostos pelo vínculo a Deus e à Igreja tem consequências não só na vida eterna, mas na vida temporal: o castigo perpétuo e constante pelas infracções cometidas é a culpa, que atrofia, a longo prazo, o estado de espírito de todos os que sentem que estão a violar os seus deveres morais e religiosos.
Ora, ainda que se assista a um grossamento das fileiras do ateísmo no último século, a verdade é que o sentimento de culpa está para ficar; e 2000 anos de educações marcadas pelas compreensões cristãs daquilo que é eticamente correcto só deixaram mais vincada na nossa mentalidade a - falsa - naturalidade do sentimento de culpa sempre que nos pareça que não fizemos sacrifícios suficientes ou que não conseguimos estar à altura do que era esperado de nós.
Vivemos numa Cultura de Sofrimento; numa cultura que se alimenta da ideia de que todo o sacrifício é um bom sacrifício, e que uma pessoa que se sacrifica até aos ossos e se dedica exclusivamente a servir os outros e a torná-los felizes é uma pessoa generosa e altruísta, e não um idiota. Serei o único a pensar que o facto de, na nossa civilização, palavras como selfless têm conotação positiva é algo de absolutamente perverso?
É isso que o Cristianismo trouxe de pior: a relativização do sofrimento individual face à satisfação alheia, de Deus, da Igreja, da Família, ou da comunidade. Alguém que não estiver disposto a aturar todo e qualquer sacrifício é considerado um egoista; e alguém que não se vir na obrigação de sofrer para agradar aos outros é posto de lado.
Vivemos numa cultura com um lado perverso: aquele que nos diz que, quanto mais nos reduzirmos e eliminarmos em prol dos outros, melhores pessoas somos; e que o sacrifício e o sofrimento, por mais inúteis que possam ser, desde que bem intencionados, são algo de bom.


«Nosso Senhor foi espancado, torturado, chicoteado, pontapeado, cuspido, humilhado e pregado a uma cruz para lá morrer em agonia - e fez isto por ti e por todos nós. E tu, meu egoísta nojento, o que estás disposto a sofrer pelos outros?»

Sonntag, 24. Januar 2010

Cântico dos Cânticos - V



«Baa'tí l'ganí achotí chalaah aarití morí im-beshamí.
Aakhaletí yarí im-divshí shaateytí yeyní im-chalaaví
Ichlú reyím shtu v'sichru dodím.»


«Entro no meu jardim, com minha irmã e minha amada - colho a mirra e o bálsamo que me pertencem
Saboreio o favo com meu mel - bebo meu vinho e meu leite
Comei ó companheiros - bebei e embriagai-vos, ó muito-amados!»




(lamento não ter encontrado o texto em caracteres hebraicos, teria sido interessante. Deixo, apenas, a transcrição imperfeita que os meus imperfeitos conhecimentos da língua de Moisés me permitem fornecer-vos)

Mittwoch, 13. Januar 2010

Introdução ao primeiro dos Livros Iluminados de Blake


«ALL RELIGIONS are ONE
The Voice of one crying in the Wilderness
»

Sir William Blake, in Os Sete Livros Iluminados

Donnerstag, 12. November 2009

Mas já me viram estes cretinos?

Caros amigos,

Parece-me que me aproximo cada vez mais da opinião do Iko a respeito da religião...


Estou cada vez mais convencido que a fé é uma coisa magnífica... é só pena cair sempre nas mãos erradas, ou converter-se num monopólio de algumas instituições milenares sequiosas de poder e cegas pelo seu fanatismo fariseu e bolorento.

Como o comprovam estas bestas salazarentas, aqui: http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1417601!



(Nota: só responderei devidamente a comentários reclamativos/opinativos/proselitistas a rejeitar o casamento entre pessoas do mesmo sexo se me apresentarem UM ÚNICO argumento que não se reconduza ao "não gosto de ver, pronto" ou outros afins baseados na irracionalidade, em moralismos ou na absolutização do valor da tradição. Convençam-me que estou errado com argumentos de gente crescida, não com argumentos de doutrina social da Igreja.)





soldados jacobinos, França, 1793

Dienstag, 3. November 2009

Sahada

أشهد أن لا إله إلاَّ الله و أشهد أن محمدا رسول الله

«Não há nenhum deus senão Deus, e Maomé é o seu profeta.»

Dienstag, 20. Oktober 2009

Resposta ao Manifesto anti-Saramago

Eu diria que há, sensivelmente, duas maneiras de olhar para as escrituras. Ou a bíblia (como tantos outros textos religiosos) é uma das primeiras tentativas da humanidade à filosofia, à literatura, à cosmologia, à astronomia e até à medicina ou então é um texto de inspiração divina que existe para guiar o Homem à salvação.
Seja qual for, a bíblia é um documento de incomensurável valor, que sem sombra de dúvida, nos diz muito sobre as nossas origens e os primórdios da civilização.
No entanto, os anos trouxeram homens que, por seu próprio mérito contribuíram de tal modo para as acima enunciadas disciplinas que não só ergueram novos paradigmas como demonstraram o quão inadequados eram os anteriores. Estes homens são os degraus na escada da história da humanidade.

Eu defendo a ideia de que um livro escrito com inspiração divina que possa ter tantas falhas não é um livro escrito com inspiração divina. E não hesito em dizer também, que também o velho testamento tem passagens lindíssimas; e também não me custa dizer que um dos conceitos que Jesus ensina é o mais sinistro de todos os conceitos alguma vez encontrados nas escrituras.
Nem com todo o genocídio, violação e infanticídio no antigo testamento há uma menção do castigo dos mortos. A punição infinita por crimes finitos, crimes cometidos em vida, por acreditar no deus errado, por tudo e mais alguma coisa.

"Tenho más notícias para ti, és um ser impuro, pecador e estás condenado ao fogo eterno. Isto por crimes que foram cometidos antes do teu tempo, por crimes que foram cometidos por outras pessoas, o pecado original. (...) Mas também tenho boas noticias, se fizeres como eu mando e obedeceres a estas 10 regras, vais ter uma recompensa para além do que possas imaginar."

O medo do inferno que é incutido às crianças é algo de muito muito perverso. E espero que esta falácia seja óbvia a todos.

A bíblia é claramente a primeira das duas hipóteses. Custa-me saber que há homens meus contemporâneos que a tomam por algo diferente.
Quanto ao Saramago, não o chamaria ignorante e não me atreveria a dizer que ele não conhece a bíblia. Agora, a abordagem dele é indício de um homem velho e amargo, o que não o torna necessariamente errado.

Montag, 19. Oktober 2009

Manifesto anti-Saramago

Como grande parte de vós saberá, não tive nunca uma educação religiosa nem sou particularmente dado a beatices, apesar do meu interesse nas diversas religiões, sobretudo as monoteístas.
Contudo, o nosso único prémio Nobel da literatura - sinceramente, ainda hoje, nem percebi porquê... - parece não deixar de dar provas de que não só é ateu, que bom para ele, mas que deseja fazer uma cruzada de ignorância contra as religiões bíblicas.
Pior que uma cruzada medieval de fanatismo religioso é a cruzada ignorante, em pleno século XXI, de um fanático ateu que devia estar calado, não opinar sobre aquilo que desconhece, e perceber que ter um Nobel não lhe dá infalibilidade - para isso, estupidamente, teria de ser Papa.

Então o nosso amigo pretensio e inflado acha que a Bíblia é um manual de perversidade, de maldade, daquilo que de pior há na «natureza humana».

Antes de mais, aluda-se ao uso da expressão filosófica que Saramago usa, reconhecida até pelos metafísicos existencialistas como filosoficamente errada por pressupor um conjunto de características comuns a todos os seres humanos, inalteráveis e eternas. O que por si pressupõe que essa humanidade homogénea não se possa alterar, e que tenha sido já "criada" assim - mazinha!
Ergo, o nosso amigo ateu está a dizer que a Bíblia constitui um manual de maldade para uma humanidade naturalmente má. E ao fazê-lo, descuida-se com ideias cliché metafísicas:
1) Descuida-se com a pressuposição de que há uma «essência» humana eterna.
2) O que pressupõe o criacionismo.
3) Descuida-se ao arrogar-se o direito de fazer juízos de valor sobre o conteúdo de um texto que não conhece, aparentemente, o suficiente.
4) Descuida-se, ao apreciar condutas sugeridas na Bíblia como «boas» ou «más» - porque, a não ser que Saramago seja leitor assíduo dos filósofos morais mais influentes do pós-guerra, libertos de quaisquer tendências divinistas na sua filosofia ética, está a apreciar a Bíblia de acordo com os critérios do Bem ou do Mal da sua Civilização. Que são os critérios de fundamento metafísico e até teológico legados pelo Cristianismo baseado no texto religioso que critica.
5) Descuida-se, em geral, enquanto velho senil, incontinente e parvo que é.

É verdade que na Bíblia encontramos coisas simpáticas como o massacre dos primogénitos egípcios para libertar os judeus (Êx.,11, 5), a prescrição da exclusão de homens bastardos ou castrados das assembleias religiosas ( Deu., 23, 1-2), a exclusão de leprosos da comunidade (Num., 5, 2), a prescrição da pena de morte para adúlteros e homossexuais (Lev., 20).
Ora, a maior parte dos fanáticos ateus é cega o suficiente para se ficar por aqui, pelo Antigo Testamento, sem preocupações de interpretação ou de compreensão.
E que tal uma excursão pelo Novo Testamento?
Vemos a maldade de afirmar a humanidade como a luz do mundo (Mateus, 5, 14); a crueldade da rejeição da vingança (Mateus, 5, 38); a perversidade de afirmar as crianças como a esperança de Deus (Mateus, 19, 13); vemos o horror da proclamação da clemência como valor em si (João, 8, 7) e vemos a repugnância do perdão (Lucas, 17, 3).

Uma pessoa pode não concordar com grande parte do código moral contido na Bíblia. Mas ninguém deve ter o atrevimento de julgar um livro dessa dimensão e profundidade como um todo, dizendo que é tudo muito bom ou tudo muito mau.
O pior é que Saramago julga as partes menos simpáticas da Bíblia de acordo com preceitos das partes mais bonitas, que vagueiam no nosso subconsciente colectivo há dois mil anos.
É preciso ser-se um ignorante completo para fazer aquele tipo de afirmações.
Entristece-me que seja aquele o nosso único Nobel da literatura. Mas se quer escrever, escreva e cale-se.