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Freitag, 29. April 2011

O Hospital


José P. saiu tarde do emprego, numa noite como esta.
À porta da empresa, tropeçou num grupo de mendigos cadavéricos deitados. Através dos seus olhos transparentes via-se a putrefacção de sonhos ingénuos acumulados ao longo de vidas que se arruinaram num abrir e fechar de olhos. Pediram-lhe dinheiro, por favor, algo para comer, por bondade; mas José P. não tinha nada.
Desceu as escadas imundas e entrou na estação inundada de massas disformes de mártires anónimos. Nas caras empalidecidas via-lhes o desespero; o seu silêncio plúmbeo tresandava a medo do futuro.
Foi aí que lhe ocorreu pela primeira vez que os túneis do metro, nos dias que correm, não são senão os esgotos ocultos das sociedades decadentes. Todo o pus segregado pela injustiça flui nos canais ininterruptamente: os incontáveis cansados, explorados, desempregados, cegos, imigrantes, estudantes esquecidos sonhando com a emigração, pequenos e médios empresários falidos, estagiários sem nome nem futuro, idosas solitárias que se alimentam de pouco mais que a amargura da velhice miserável, advogados agrilhoados em torres de intermináveis processos de insolvência.
Saiu e apanhou o autocarro para a sua cidade-dormitório, o império da insónia dos desempregados e dos pequenos comerciantes - que contam em angústia os segundos que faltam para perderem o subsídio ou para dívidas invencíveis vencerem. No caminho, pensou que como a noite estava escura e o Município tem dinheiro para criar para primos e camaradas de partido empresas que nascem deficitárias e inúteis, mas não para assegurar uma iluminação suficiente nas ruas, talvez ainda fosse assaltado e devia era andar depressa para chegar a casa.
Mas depois lembrou-se que não tinha dinheiro. Nem mesmo anel de noivado, que tinha entregue com grande relutância a um daqueles homens muito honestos que se vê por aí cada vez mais, daqueles que compram o ouro a pessoas quase falidas ao preço da chuva.
José P. lembrou-se que não tinha nada na vida, nunca teve, e nunca teria; e viu que lhe era completamente indiferente se era assaltado ou não. Mesmo que fosse, não tinha vontade de voltar a ir à esquadra e rogar insistentemente a mais um chui gordo, imbecil e imprestável o favor de lhe dar os tais impressos para não-sei-quê para os preencher antes que fossem definitivamente perdidos nos abismos da Administração Pública e da Justiça portuguesas sem que ninguém se voltasse a chatear com o assalto: nem o chui indiferente e inerte, nem o ladrão que dorme descansado na segurança da sua impunidade certa, nem os funcionários públicos bafientos ausentes na sua permanente indignação por os seus privilégios deixarem de ser tabu, nem o juiz frustrado com a desorganização patológica do sistema judicial que suspira de desgosto quando tem a certeza absoluta que acabou de ouvir ratazanas a fornicar dentro de um dos muitos buracos encharcados nas paredes da sala de audiências.
Das janelas do autocarro ainda passou pela parte rica da cidade, por breves momentos. E José P. conseguiu ver altos muros armados com alarmes protegendo vivendas de intocáveis de fato e gravata, intocáveis que se alimentam de jantares de negócios, que levam os filhos para o colégio de BMW e Jipe até à idade em que estes já podem conduzir o seu próprio BMW e Jipe para a Universidade privada. Também eles vivem com medo de serem roubados, mas não do desemprego ou da pobreza: afinal, conhecem um gajo, pá, que conhece outro gajo, pá.
Chegou à casa vazia e abriu a caixa do correio.
Viu que tinha chegado mais uma remessa de cartas do banco, de velhos amigos que tinham emprestado algum dinheiro em alturas difíceis e agora pediam amavelmente o dinheiro de volta, visto estarem eles próprios a apertar tanto o cinto que em breve estariam cortados em dois. Havia também inúmeras cartas das telecomunicações, da água e do gás e da electricidade, que exigiam mais e mais e mais ainda; afinal, podiam fazê-lo impunemente, como monopolistas ou oligopolistas, longe de um mercado livre guardado por Autoridades da Concorrência activas.
José Pedro suspirou, sentiu uma dor de cabeça profunda.
Como ia pagar aquilo tudo? Era impossível, agora que tinha voltado pela última vez a casa vindo da empresa. Lembraram-lhe que aquilo que ele tinha não era bem um contrato e que podiam fazer com ele o que quisesse.

De repente, a dor ficou ainda pior. Lembrou-se que para a semana tinha de pagar os impostos. Talvez se o banco lhe pudesse emprestar dinheiro? Mas agora já não emprestam dinheiro a ninguém para nada, ao passo que antigamente emprestavam a todos para tudo. Tirou a mão do bolso e saiu o talão do supermercado. Pegou nele antes de o pôr no lixo e, subitamente, desatou a chorar descontroladamente. Chorou como uma criança abandonada. O IVA já estava a 25% e ia de certeza subir de novo. E sabia que deles não sairia nada para o subsídio de desemprego agora até arranjar outro trabalho, ou para a reforma: ia, sim, para bónus de gestores públicos na casa dos 30-40 evidentemente inaptos para mais do que ir falar de bola e para almoços da sua Juventude partidária; aquele IVA ia, sim, para as indemnizações compensatórias de empresas públicas que são nados-mortos ou mortos-vivos económicos.

José P. não aguentava mais. Todos lhe exigem tudo o que tem e os seus filhos haveriam de ter, mas ele não pode sequer pedir impressos para não-sei-quê com a mais inocente facilidade.
Atirou-se do seu 5.º andar e caiu sobre a rotunda.
Os vizinhos, em alvoroço, chamaram a ambulância para levar o pobre Sr. P. ao Hospital.
Lá veio a ambulância, passados 20 minutos, que logo arrancou e levou José P., moribundo.

A viatura parou à porta do Hospital. Os enfermeiros coçaram a cabeça quando perceberam o que se passava e tentaram acordar José P.. Explicaram-lhe que pediam muita desculpa, mas que tinha havido um mal-entendido e que o tinham levado para o Hospital do Município, ignorando que as obras da sua construção ainda nem sequer tinham terminado. E ainda por cima, acabavam de reparar que se tinham esquecido de encher o depósito com gasolina.
Agora já era tarde demais. José P. ia mesmo morrer ali. Consta que as suas últimas palavras foram:
«Mas... então isto é assim? Eu a morrer e vocês nem têm o cuidado para ver se o Hospital está a funcionar? Mas não conseguem fazer o vosso trabalho?»
Ao que o enfermeiro respondeu, como qualquer português o teria feito:
«Isso das informações é lá com a central. Não é a minha área. Mas se quiser, dou-lhe o endereço do meu superior hierárquico para enviar uma carta a queixar-se. Só não garanto que algum dia alguém a leia.»





F. B. B.

Samstag, 23. April 2011

O Instituto


Ainda envolto e matinal, vestiu-se mecânica e agilmente entre a cálida Primavera dos raios que chegavam pela fresca janela. O Sol nascia... E enjoado pelo entusiasmo da insónia, cansado pela noite, mas animado pelo dia, saíra da cama e esvoaçava pela ligeira neblina até à estação.

Era o primeiro dia de uma nova etapa, ou pelo menos, assim o via. Entre o bulício do pequeno terminal entrava no comboio. Outros como ele se dirigiam hoje para a capital. Num deserto de caras conhecidas, não reconheceu ninguém e sentou-se numa cadeira sozinha ao pé da janela. Entre os carris, ruídos e fumos deixava a sua terra natal, a sua família e um conjunto de poemas bem conhecidos para dar o primeiro passo em direcção à sua independência e vida adulta.

Sem saber ao certo o que o esperava, de mãos abertas e sem qualquer tipo de expectativa boa ou má, deixava na mala o seu passado e procurava agarrar como louco fugitivo sedento de liberdade, a incerteza desse futuro que tanto temia mas pelo qual tanto ansiava. O comboio partia. Comboio do inconsciente, onde depositava todas as suas esperanças, sobretudo de encontrar algo completamente diferente e distinto dos bucólicos campos e das vastas planícies que hoje abandonava na janela da carruagem.

Já aninhado no calor da carruagem, distraído e sonolento, ignorava os conterrâneos e deixava lentamente embalar-se pelo metrónomo da velha linha... assistindo desligado às verdes planícies salpicadas de sobreiros e aldeias distantes que entre os caminhos e riachos, velhas estradas e pontes, lhe corriam pelos olhos da janela embaciada.

E neste sono acordado fluíam-lhe as águas apressadas de um inquieto e fresco riacho primaveril onde corriam todas as escolhas e eventos, todas as encruzilhadas que o tinham trazido até ao dia presente. E nas faces desses fios de água rápidos e transparentes, incisivos reflexos desse Sol que não conseguia encarar encandeavam-no, ferindo-lhe os olhos claros. Rapidamente desviava o olhar e o pensamento acordando, mas deixava novamente o sonho seguir em frente, ignorando todos os condicionamentos, medos e manias que corriam nessa cortina de água, reflexos e luz que impossibilitado de agarrar ou fixar na sua mente, agora desagoava na foz desta nova era... Pim! A carruagem engasga-se e arrancado desse fluxo, subitamente acorda. O comboio chegara.

Animado pela adrenalina do sobressalto, sai rapidamente do comboio e ignorando as multidões, atravessa a estação parecendo invisível à confusão matinal na grande cidade. Familiar às velhas ruas, deambulava até ao seu objectivo ainda perdido nos labirintos do sonho que tivera.

Mas sim, queria virar a página! Em boa verdade, nem faria sentido de outra forma. Queria acima de tudo esquecer esse passado e abraçar com esperança renovada o futuro que se aproximava inquieto, o que só era possível no gentil embalo da ingénua ignorância de si mesmo, correndo sempre para os seus longos braços depois dos breves momentos de consciência que o assolavam, esquecendo-se por completo do que fora, do que era... Sempre nessa ilusão, na esperança daquilo que virá...

E foi em passo apressado, num misto de optimismo e distracção que caminhou pelas velhas ruas do antigo regime, e lhe afloravam algumas destas emoções e pensamentos, enquanto revia mentalmente todo o jogo burocrático envolvido no misterioso processo de inscrição.

No entanto, e à medida em que resolvia mentalmente estas preocupações prácticas, por maior que fosse o esforço para esse conveniente esquecimento, o prisioneiro sedento e afogueado temia em todas as ruelas e esquinas desta nova vida, a velha polícia do passado ou a denúncia anónima de uma qualquer memória há muito esquecida.

E foi neste inquieto estado de alma que subiu a velha colina e depois a escadaria até aos ferrugentos portões do Instituto.

André Cunha

Dienstag, 18. Januar 2011

Complete o conto.

«Batia incessante e nervosamente com a ponta dos dedos na mesa de madeira crua, causando pequenos tremores na vela que ardia em impaciência naquele canto escuro da taberna. O tempo arrastava-se dolorosamente, e Sophie sentia que não podia mais esperar. Não por muito mais tempo.
Eram tempos perigosos que se viviam, ela sabia disso. Mas tinha de ter vindo, ocupar aquele mesmo lugar da estalagem suja e meio vazia, àquela gelada hora da noite. Muito dependia do decurso que esta tomasse, e de cada sílaba das suas palavras que pronunciasse - e por isso, sentia medo e tremia.
De repente, ouviu passos vindos da escada...



Convido-vos a todos a terminar a história, cada um como quiser. Fica ao vosso critério o desenvolvimento e o fim.

Divirtam-se!

FBB

Samstag, 6. November 2010

Julgamento


Num salão húmido de basalto coberto pela poeira legada pelas gerações das Eras do Mundo que se sucederam, pingava água gelada, algo ressonava, rangiam as dobradiças, e fungava impaciente o Juiz. Subiu ao estrado e sentou-se no cadeirão.
Todos se levantaram - os Autores, a sua defesa e o Réu.
Colocou os óculos, fungou, e leu:

«Após curta, irreflectida e arbitrária apreciação dos diferentes argumentos apresentados exclusivamente pelos Autores, o Tribunal decidiu condenar o Réu, D..., por quem nunca chegou a ter grande simpatia, à morte por esquecimento.»

Fungou e tossiu e fungou de novo. Os Autores e a sua defesa sussurravam palavras de alegria, o Réu aceitou tristemente o seu destino, e o advogado da sua defesa ressonava através da sua bocarra escancarada. Escorriam fetidamente gotas de água pelas estátuas e baixo-relevos negros, outrora lembranças do suspiro enamorado da Criação, hoje quebradiças testemunhas mudas da sua execução sumária, da farsa do seu julgamento.
O Juiz limpou o muco à manga da toga e continuou:

«Tendo o Juiz proibido toda e qualquer argumentação da parte do Réu, dada a sua insolência em permanecer doente, mudo e cego, e não tendo a sua defesa chegado a acordar, o Réu é considerado culpado pelos crimes que agora se passam a enunciar:»

O Velho estremeceu de frio e desespero, as suas pesadas algemas afundavam-se nas suas barbas brancas incomensuráveis que se iam fiando e desfiando em nuvens. Os seus pequenos olhos escuros gritavam mágoa, e a sua mágoa gritava de injustiça. E no entanto, seguiu-se a enumeração das atrocidades por que agora o sentenciavam. O Juiz tossiu e continuou:

«Infanticídio em massa de primogénitos; filicídio premeditado e preparado com particular perfídia; coacção a um pai para que matasse o próprio filho; sucessivos massacres por afogamento diluviano ou por bombardeamentos de enxofre e fogo; omissões que resultaram na morte dos seus seguidores nas mandíbulas de leões; incitamento à homofobia, à misoginia, à xenofobia; tortura em massa pelo sentimento de culpa e pelo terror de um suposto fogo; degradação dos Autores à ignorância e ao preconceito; burla espiritual ao convencer os Autores da existência de uma contraprestação fictícia pela vida de anhos que os coagia a levar; mentiras reiteradas, monumentais, universais e ruinosas com sequelas ainda por determinar no pensamento dos Autores...»

O Velho estremeceu de novo, eles não sabem o que estão a fazer. O Juiz prosseguiu:

«... e porque, e este foi o motivo determinante, qualquer papel do Réu no nosso novo mundo é impensável. Dispensamos quem nos criou a nós. A Nós, os Autores irados e foragidos, e a Nós, o Juiz débil e corrupto e câmara decadente da aplicação da anomia. Por termos sido tão maltratados, pensamos chegada a altura de exercer a injustiça popular e linchar o Pai, nesta mesma Sala. A Nossa era chegou. Seja Ele esquecido.»

E o Velho, doente, curvo, frágil, mirrado e espancado, teria chorado mais se pudesse ter visto o que lhe aconteceu. Mas era cego. E teria soluçado e dito últimas palavras, de conforto ou de despedida. Mas era mudo.
Esvaneceu-se. E as nuvens dissolveram-se, como se nunca tivessem existido.





Rafael Silveira Neves

Donnerstag, 5. November 2009

Homenagens Improváveis



Não presto a devida atenção a quem me a merece. Aqui fica esta homenagem acompanhada de uma pequena lenda chinesa que aprendi nas aulas de Mandarim. Foi-me dita ser a origem do mais importante feriado chinês, o Festival das Luzes Claras em que são honrados os mortos.

Forget Him

Há muito tempo, num dos reinos que viria a formar o Império do Meio, o país que actualmente conhecemos por China, existia um Rei que além da sua Rainha, tinha várias concubinas e filhos vários. Aquando da sua morte, uma concubina ciosa dos interesses do seu filho, através das teias da intriga conseguiu afastar do poder o Príncipe filho da Rainha, legítimo herdeiro ao trono.

Usurpado, o Príncipe fugiu para um exílio em terras desoladas e distantes juntamente com o seu séquito de fiéis. Durante anos vaguearam e um dia em que atravessavam terras ermas, fustigado pelo cansaço e pela fome, o Príncipe lamenta-se faminto ao seu mais fiel General.

Motivado pela necessidade do seu Senhor, o fiel General percorreu extensas distâncias procurando caça sem nada encontrar. Eis que quando o Príncipe já havia perdido a esperança que o seu fiel súbdito lhe conseguisse algum alimento, que este surge com a mais improvável das oferendas, uma refeição de carne.

Esfaimado, o Príncipe devorou a carne sem fazer perguntas até que finda, insatisfeito, pediu mais ao fiel General. Perante este pedido, o General destapa a coxa lancetada e diz calmamente, “Se o meu Príncipe quer mais carne, posso cortar mais um pouco.” Perante esta demonstração, o Príncipe rapidamente se refreou.

Anos passaram e o Príncipe e o seu séquito reuniram as forças necessárias para recuperar o poder anos antes usurpado. Assim foi, e o Príncipe regressou ao Reino como Soberano coroado em glória.

No frenesim da vitória e do regresso ao conforto após anos de sacrifício e privação, o Príncipe e o séquito que se tornou sua corte rapidamente entraram numa vida de luxo decadente e deboche no fausto do Palácio. Confrontado com esta situação, o enfermo General renegou a vida na corte e foi viver com a sua mãe como homem pobre, seguindo o estilo de vida a que se tinha habituado durante os anos do exílio.

Não satisfeito com esta situação, o agora Rei tentou conceder as maiores honras de Estado ao antigo General. Recebendo as oferendas do seu Senhor, o General agradeceu mas recusou todas as honras bem como regressar ao Palácio.

Não aceitando esta decisão por parte do seu súbdito, o Rei enviou um séquito militar para persuadir o seu querido General. Sabendo das intenções do seu Soberano, o General fugiu com a sua mãe para a Floresta na Montanha.

Ofendido com a fuga do General, o Rei enviou o exército para o ir resgatar à velha Floresta para que este aceitasse as honras oferecidas. O exército calcorreou a Floresta e encurralou o General na Montanha.

Fracassando em encontrá-lo e com a aprovação do Soberano, o exército decidiu cercar e incinerar a Floresta para que o velho General ao fugir das chamas, fosse finalmente resgatado para poder receber as honras devidas que havia recusado.

Mas enquanto a Floresta ardia, o General tardava em aparecer e quando finalmente ficou toda a Montanha coberta por nada mais do que cinzas, o General continuava desaparecido.

Inconformado, o Rei ordenou a procura dia e noite pela Montanha. Ao entrarem numa gruta, encontraram por fim o antigo General agora calcinado abraçado à sua velha mãe.

Consumido pelo remorso, o Rei declarou então três dias sem uso do fogo para honrar a memória do seu mais fiel súbdito.

Infelizmente fui certamente pouco rigoroso na reprodução da mesma mas tentei ser o mais literal possível em relação à versão que me foi instruída em respeito ao Professor Lu Yanbin. Mas se tiverem interesse podem sempre ver uma pequena variação da mesma lenda mais historicamente detalhada aqui mas na minha opinião penso que o tom que usei foi bem conseguido baseado no meu parco contacto directo com a cultura asiática.

Nota: Podem ver a imagem completa de uma gravura em panorama “Ao longo do Rio durante o Festival das Luzes Claras”, réplica datada do século XVIII do original do século XII carregando na imagem.

Sonntag, 25. Mai 2008

Excerto de "Zadig" de Voltaire

[nos capítulos anteriores, a figura principal, Zadig, é feito escravo de Setoc, o pagão, que começa agora compreender que o seu escravo babilónio é sábio e profético...]

Setoc, encantado, fez do escravo seu amigo íntimo. Tal como o rei de Babilônia, não podia passar sem
êle, e Zadig felicitava-se de que Setoc não tivesse mulher. Reconhecia no seu amo um natural pendor
para o bem, muita retidão e bom senso. Doeu-lhe comprovar que êste adorava o exército celeste, isto é, o
sol, a lua e as estrêlas, conforme o antigo costume árabe. E a isso se referia às vêzes muito discretamente.
Afinal lhe disse que eram corpos como os outros e que não mereciam as suas homenagens, mais que uma
árvore ou um rochedo quaisquer.
- Mas - retrucava Setoc, - trata-se de sêres eternos de que auferimos todos os benefícios; animam a
natureza; regulam as estações; e estão aliás tão longe de nós que é impossível deixar de venerá-los.
- Mais benefícios respondeu Zadig - recebe o senhor das águas do Mar Vermelho, que lhe transportam as
mercadorias para a Índia. Por que não há de ser êle tão antigo como as estrêlas? E se o caso é adorar o
que se acha afastado, devia então o amo adorar a terra dos gangáridas, que fica nos limites do mundo.
- Não - dizia Setoc, - as estrêlas são muito brilhantes para que eu não as adore.
Quando anoiteceu, Zadig acendeu inúmeras velas na tenda onde devia cear com Setoc, e logo que êste
apareceu, lançou-se ao pé daquelas ceras alumiadas, e exclamou: "Eternas e brilhantes luzes, sêde-me
propícias para sempre." Dito isto, sentou-se à mesa sem olhar para Setoc.
- Que fazes? - perguntou Setoc, espantado.
- Faço como o meu amo; adoro essas luzes e negligencio aquele que é senhor delas, e meu senhor.

Sonntag, 23. März 2008

Achmed, o Louco, um Conto meu

Era uma vez, há muito tempo, um sultão muito poderoso que vivia num palácio de ouro puro com as suas três mil concubinas, oitenta mulheres e trezentas amantes. Chamava-se sultão Achmed ibn Musa ibn Mehmet ibn Nuh ibn Atif ibn Suleyman ibn Ali e era o homem mais poderoso do mundo e o mais rico e o mais feliz de todos os reis, e sem dúvida o mais amado pelos seus súbditos. Isto, claro, no tempo em que todos os grandes reis viviam quase eternamente.
A sua vida na corte era ociosa e alegre, os seus conselheiros eram fiéis e úteis, as suas concubinas, de porte generoso, as suas amantes tinham um coração do tamanho das suas ancas e as suas mulheres eram de poucas palavras. Por isso era, ou tinha sido, em tempos, o homem mais feliz do mundo.
O sultão Achmed possuía toda a riqueza do vasto império que tinha conquistado com a ajuda dos seus eternamente fiéis mercenários mongóis, que se alimentavam principalmente do nutritivo leite de camelo, do sangue dos seus cavalos, e do de crianças quando as suas montadas já se tinham esvaído até à morte. Estes tinham-no apoiado na subjugação de um território rico, mas mergulhado até então numa grande guerra entre Aldeias-Estado e principados minúsculos. Até o sultão Achmed ter surgido no seu cavalo branco – que dava pelo nome de Aristóteles – a região via-se dominada por magníficos príncipes que lutariam uns contra os outros até à ruína pela posse de um rochedo ou pelo controle sobre um moinho.
Na longuíssima cronologia das guerras deste país, as batalhas mais marcantes tinham sido a do Celeiro Grande, a das Ovelhas e a do Areal.
Na primeira, o exército do príncipe cristão Teodoro CCXXV tinha-se barricado num celeiro que defendeu até à morte do príncipe mouro Maomé LVI, o Sangrento, que esfomeou as hostes de Teodoro até à morte durante o cerco, o que chacinou todos os dezasseis guerreiros cristãos e o príncipe.Os camponeses armados de Maomé LVI fizeram questão de exibir esses 17 corpos na sua aldeia para comemorar a grande vitória que tinha alcançado apesar da ofuscante desvantagem numérica. Demorou um dia inteiro quatro aos homens que compunham as hostes de Maomé para os arrastar até à sua aldeia.
A grande e longa Batalha das Ovelhas ocorreu na noite do festejo do quinto aniversário da Batalha do Celeiro Grande. O aliado de Teodoro CCXXV, Teodorico CCXXIV, o Leproso, passara os últimos 5 anos a planear a vingança da derrota do seu irmão em Cristo. Planeava destruir a economia do território de Maomé LVI roubando-lhe as ovelhas da sua aldeia. Teodorico, o Leproso, reunira o maior exército alguma vez avistado na região – trinta e um guerreiros que faziam o chão tremer e os céus chorar! – e liderava-os, em pessoa, para roubar os ditos ovídeos. Os espiões de Maomé, mascarados de tapetes no palácio de três assoalhadas de Teodorico, haviam-no precavido desta incursão cobarde no meio da noite, pelo que o príncipe mouro pôde organizar a defesa do gado do seu país de forma engenhosa. Mascarou o seu exército inteiro – todos os onze soldados e meio e ele mesmo! – de ovelhas, armados até aos dentes com punhais sob as peles que vestiam, e esperou pacientemente pela vinda dos cobardes nazarenos de Teodorico, o Leproso.
Esperaram longamente a noite fora, até madrugada, pelo inimigo, mas nada viram senão as ovelhas do rebanho que os soldados de Teodorico ambicionavam levar.
Nisto, até os mais experientes e disciplinados guerreiros de Maomé perderam a paciência e, sem nada que comer nem cristão que matar, um dos mais bravos e poderosos homens da horda, Ali, o Frugal, acabou por suspirar por entre as pregas da sua rechonchudeza, depois de nove horas de espera, ao raiar do dia:
“Agora é que eu despachava uns bifinhos de borrego…”E qual não foi a surpresa geral quando, de repente, algum bárbaro de Teodorico, também disfarçado de ovelha, gritou ao seu príncipe:
“Alteza, estamos cercados! É uma emboscada!”
E ambos os rebanhos, o cristão e o mourisco, à espera um do outro há horas, ergueram-se em pânico, rodeados por ovelhas cuja lealdade não poderia ser discernida na escuridão total em que estavam. Logo, lançaram-se numa chacina sangrenta de todas que encontravam ainda a respirar, lutando umas contra as outras, na sua surpresa, ignorando se eram de Teodorico ou de Maomé. Até que houve luz suficiente para que três soldados do falecido Teodorico CCXXIV se reconhecessem, ofegantes e a tremer, antes de se chacinarem.
A batalha do Areal não foi tão sangrenta, mas igualmente importante na História do continente.
Aí, os exércitos de Ivan MII, o Manso e do basileu grego Teodósio MMCCXLIII defrontaram-se na plena expansão dos seus territórios, por um Areal com ricos depósitos de areia, essencial para a indústria de areia de ambas as Aldeias-Estado. Neste caso, os três cavaleiros de Ivan MII, o Manso, foram completamente derrotados por Teodósio MMCCXLIII que, numa fúria tremenda, os derrotou-os aos quatro com a sua fisga e espalhou o sangue dos bárbaros de Ivan pela areia.
Estas cruéis guerras prolongavam-se há oito mil e quinhentos anos, os títulos dos príncipes e dos seus barões eram transmitidos aos sucessores desde os primórdios do tempo, as batalhas e os seus mortos acumulavam-se, o povo vivia cansado e com medo, os artesãos frustrados de tédio cada vez que os seus príncipes lhes encomendavam mais espadas, mais mosquetes, mais velas para as caravelas das suas armadas, suspiravam “quando poderei finalmente forjar ferramentas?”, “quando poderei criar fogo-de-artifício?” e “quando poderei tecer tapetes ricos?”. E as guerras duravam e duravam, entre as 6327 orgulhosas vilas, Aldeias-Estado, reinos de quinhentas pessoas e impérios de meia légua que há muito se tinham esquecido de porque lutavam entre si.
Foi neste contexto que o sultão Achmed, soberano de uma vila maiorzinha que um dia seria uma capital dourada, pegou nas poupanças milenares dos seus domínios, as colocou num monte enorme na sala do seu trono, e mandou chamar os seus nobres, debatendo o que havia a ser feito no continente para acabar de uma vez por todas com a guerra que parecia não ter fim. Para além do mais, ouviam-se relatos de uma hoste fenomenal de bárbaros mongóis, sujeitos sujos e sangrentos, mas incrivelmente ingénuos e estúpidos.
Foi então do consenso geral da sua corte que a única solução para acabar com as guerras mesquinhas de há milénios seria unificar todos os reinos, fossem eles gregos, árabes, turcos, latinos, germânicos, francos, mouros ou judaicos. E para o fazer, teriam de tornar os mongóis nos seus mercenários para subjugar todo o reino, de forma a que todos os nobres aceitassem Achmed ibn Musa ibn Mehmet ibn Nuh ibn Atif ibn Suleyman ibn Ali como o seu sultão supremo e imperador.
Depois de cavalgar ao seu encontro em pessoa, o sultão Achmed encontrou o acampamento mongol, e prometeu a todos os vinte mil guerreiros três cavalos novos e uma renda anual se o ajudassem a conquistar todos os reinos e Aldeias-Estado. Felizes com a promessa, os mongóis limitaram-se a dividir a sua horda em quarenta exércitos mais pequenos, que então viajaram por todo o continente ordenando aos outros soberanos que se submetessem ao Sultão Achmed I, o Grande, Imperador do Continente. O povo todo esqueceu as etnias e religiões e lançou os braços ao céu, feliz por a guerra acabar, e viu o sultão Achmed como um salvador, e aclamou-o como único soberano digno de governar todo o continente. A maioria dos nobres aceitou prestar-lhe vassalagem de bom grado, e viu nele o mesmo salvador que o povo. Outros nobres, pensando que se tratava de mais um estratagema bélico mesquinho, recusaram-no, gritando que preferiam entregar os seus filhos ao Demónio. Neste caso, os mongóis solicitaram amavelmente que repensassem o que tinham dito após entrarem-lhes pelos palácios adentro e comendo a sua descendência viva.
Os mercenários mongóis tornaram a unificação do império mais fácil, portanto, chamando à razão de forma original todos os que se opunham. Em breve, os mongóis já não seriam necessários, pois um grande orgulho nacional tinha surgido por todo o império surgira, tornando todos os príncipes, barões e cavaleiros fidelíssimos a Achmed, que possuía o maior exército do mundo. Este tinha resolvido as disputas territoriais decretando que já não teriam razões para se guerrearem, pois tudo seria de todos, a pátria era apenas uma e todos tinham o direito de a povoar como entendessem, desde que não tirassem nada a ninguém.
Muito depressa, o comércio, a agricultura e a indústria floresceram, e criou-se uma capital chamada “Viva Achmed” na velha vila do sultão, que se tornaria num pólo de saber, de beleza e de arte. Aí, o imperador e sultão criara uma das cidades mais populosas, limpas e ricas do mundo, sendo o seu centro o seu palácio, construído a partir de ouro puro, angariado por meio de um imposto especial por duvidar do poder de Achmed I, o Grande.
O desenvolvimento rápido do país tornara todos os habitantes felizes, e o sultão também o foi durante séculos, até que se sentiu entediado pelo ócio e pela alegria enfadonha e monótona da sua corte.
O reino crescia rapidamente, até demais, portanto Achmed decidiu que era chegada a altura de solicitar amavelmente aos habitantes de um reino numa ilha vizinha que abandonassem as casas e campos para fomentar actividades no sector imobiliário, de modo a albergar colonos do seu império. Para além do mais, a ilha transbordava de ouro, prata e outros minerais que fariam falta na ala do harém do palácio de Achmed. Desde que chegara ao poder, não o largava a ambição de ter o palácio e a vida mais soberbos e um nome eterno e uma casa-de-banho feita inteiramente de prata.
A conquista do reino da ilha foi célere e sem grandes dificuldades, os guerreiros mongóis demonstraram mais uma vez os seus dotes diplomáticos, chegando a compromissos com os nativos, negociando por um preço adequado - nada - as suas propriedades.
Em pouco tempo, o povo da ilha, uma estirpe de gregos, compreendeu que tinha chegado a sua vez de procurar novos territórios e novas riquezas, portanto reuniu-se, na sua maior parte, nas costas do seu antigo reino e levantou âncoras rumo à glória e às alegrias da aventura. Os restantes foram escravizados.
O povo de Achmed enriquecia ainda mais, o próprio Achmed também alcançava todas as riquezas que procurava. Mas a vida na corte tornava-se de novo monótona, precisava de algo novo para oferecer ao povo e ao seu grande ego de homem que usufrui da companhia de cerca de quatro mil grandes mulheres, milhares de toneladas de feminilidade.
Havia uma outra ilha, conhecida por ser a maior produtora do mundo de pedras de calçada, palha e diamantes. Achmed achou que mais riqueza fazia falta no seu império, portanto mandou os seus mongóis de novo para negociar com os germanos bárbaros que nela viviam, que depois de delinearem muito bem o abandono da ilha e de morrerem de forma hierarquizada e organizada - como apenas os germanos o sabem fazer! - e de chorarem disciplinadamente e de forma fria enquanto negociavam poderem manter parte da sua riqueza se entregassem todos os seus filhos e mulheres aos mongóis, os germanos abandonaram corajosamente a sua ilha, convencidos de terem tido um comportamento exemplar: Tudo tinha corrido de forma linear, não tinham sujado as ruas das suas aldeias e cidades pacíficas e esterilizadas com o seu sangue. A sua organização e limpeza era a prova de que tinha sido a melhor decisão.
Tambem Achmed achou que tinha sido a conclusão mais feliz possível. Mas séculos depois, quando começou a fartar-se das mossas que as suas grandes mulheres deixavam nas armações das suas camas de prata, Achmed decidiu partir ele mesmo, mais uma vez, com uma grande armada para conquistar mais uma ilha, a mais rica do mundo conhecido em pardais, areia - como o neto de Teodósio MMCCXLIII, Teodósio MMCCXLV, se alegrou por poder expandir lá a sua indústria enviando colonos seus, antigos combatentes mongóis, incrivelmente ingénuos e estúpidos! - e sobretudo, a mais rica em rubis.
A grande armada, com uma caravela baptizada em honra de cada uma das mulheres e concubinas e amantes de Achmed I, estava a metade do caminho quando foi assomada por uma terrível tempestade que destruiu toda a frota e todos os náufragos foram levados por correntes diferentes, e afogaram-se ou morreram de fome ou sede enquanto flutuavam. Outros, ainda, foram levados em grupo pelas correntes até bancos de areia no meio do oceano, onde tentaram estabelecer pequenas indústrias de extracção de areia. Naturalmente, isto revelou-se uma perda de tempo, pois também morreriam de fome. Que bárbaros mongóis tão incrivelmente ingénuos e estúpidos!...
Achmed, enfim, não teria a sorte de morrer sozinho. Estava sozinho, no meio do mar, destronado de um império que se desfaria depois da sua morte não por não deixar sucessores, mas por ter criado desses em demasia. Quando o seu estômago rosnava, perguntava-se se não tinha sido um pouco-tanto ganancioso e se aquilo, no fundo, era evitável e indesejável.
Estava a morrer de fome e de sede, mas foi salvo por uma frota de navios. A princípio ficou eufórico por já não morrer, por poder pagar aos marinheiros com terras suas se o levassem de novo a qualquer cidade do seu império.
Mas não teve essa sorte. Eram piratas sujos, de traços cruéis e duros que se divertiam desancando gatos e chupando o tutano dos oços de prisioneiros vivos. Acorrentaram o sultão Achmed e trouxeram-no à presença do líder daquela frota pirata, que ficou a saber que se chamava Hrocknart, o Doce. E perante os olhos negros daqueles homens que tinham alcunhas como "Faca", "Estripador", "Estripa-Gatos", "Estripa-Imperadores" e "Viola-Sultões", Achmed tremia e contava a sua história. Os piratas olharam entre si uns segundos com olhares que deram arrepios ao sultão por o lembrarem demasiado das suas mulheres e por fim, Hrocknart proferiu a sua sentença:
"Ó grande sultão, somos a tribo germânica que despojaste de mulheres e expulsaste para as entranhas do mar. Para sobreviver, o nosso povo teve de se tornar num de piratas e corsários, raptando novos recrutas, já que não podemos procriar sem fêmeas. Por isso também desenvolvemos hábitos muito, digamos...sui generis."
E todos os piratas anuiram, sorrindo para Achmed e lambendo os beiços. Este perguntou, consternado...
"E que hábitos são esses?"E Hrocknart, o Doce, respondeu:
"Talvez se te apresentar parte da nossa tripulação passes a perceber. Aqui tens o "Faca"... de epíteto, "o Que Nunca Gane".... aqui tens Fraygnir... de epíteto, "o Grande"... Vê como esse querido sorri quando falamos do seu cognome, hehe. Bem, continuando... aqui tens Klauggur... de cognome "o Carrasco".... e Ugmann.... "o Que Usa Cobras e Enguias".... Ó grande sultão, com isto tudo desejo que conheças a nossa natureza, a natureza a que nos forçaste. Décadas do alto-mar para onde nos baniste forçaram-nos a ser o que somos e aquilo em que, por ironia do destino, também te converterás devido à tua ganância. Serás para sempre o nosso prisioneiro, escravo do nosso povo, propriedade do Estado, do único Estado que nos permitiste ter, o do alto-mar, onde ninguém te ouve."E foi assim que o sultão Achmet I, o Grande e o Destronado, navegou para sempre, à procura da aventura, depois de ter engolido o orgulho e quebrado a sua dignidade que sangrara, no início, na companhia do Povo dos Piratas Sodomitas.