Dienstag, 1. September 2009

Moisés

Hoje tropecei na estátua do Moisés e sonhei com uma lenda associada a esta obra. Os caminhos da minha mente foram um pouco mais sombrios que a lenda original mas resolvi escrever isto aqui antes que me esqueça, porque assim são os sonhos, efémeros e esfumam-se por entre os dedos por mais que os tentemos fixar.


P.S. Já agora, já acertavam o relógio disto, são 8 horas da manhã e é dia 1 de Setembro.


A brisa fresca cintilava entre as ramagens sibilantes da manhã. Entre a azáfama primaveril o louco exaltava os homens. Incrédulos transportavam o volume alvo pelo magro pórtico esmagando as roseiras brancas do jardim. Directo de Fiesole, o enorme bloco protagonizava agora o verdejante palco da pequena propriedade. Esgotados, o escultor apressava agora os homens para fora da propriedade, atarantados sorriam idiotas face ao seu esgar irado e sem pressas abandonavam as imediações. Com gestos bruscos e apressados, expulsava-os apressadamente, atingido pela luxúria criadora procurava nos labirintos da sua idealização as linhas do projecto.


Em cada instante desenhava-se na sua mente a forma que nasceria naquele tosco seráfico. Correu para a pedra e sentiu-a com as mãos ásperas e experientes, com elas percorreu o paralelepípedo, possuído pela ânsia da sua visão. Os dedos percorriam o corpo branco e adivinhavam as formas que já via na sua mente. Percebia a pedra, sentia-lhe cada detalhe, o escopro da sua vaidade artística desenhava cada contorno, cada ângulo, emergiam no barro criador da sua mente e nunca se enganava, não, a pedra tinha o marco da criação e os meses de persistência necessária para trabalhar o mono afiguravam-se como segundos.


Incansável, descobriu dia após dia, mês após mês as formas desta réplica dos seus desejos. Revelou-lhe rapidamente as faces angulosas, o nariz fino e rectilíneo, o olhar determinado pautado por melancolia e cansaço de uma viagem de quarenta anos, a boca grave dos povos do deserto… Já lhe adivinhava o corpo seco e musculado, os ossos salientes entre os músculos, os dias escorriam por cada veia que se definia, desde as mãos longas e ossudas do profeta que não foi até aos pés cansados das pernas viajadas. Mas prosseguia a encomenda da fé que o invocava, martelava e compunha cada curva, o torso esguio, as pernas musculadas pela longa viagem e em cada golpe tudo se definia, o futuro do passado da vontade daquele que morreu às portas da terra prometida.


A promessa divina estava finalmente ao seu alcance, a obra terminada coberta pelo lençol branco manchado pelo sangue e suor do ardor que o possuía. A noite estava tépida e a natureza aguardava em expectativa entre ventos que não sopram. Meses haviam passado, o Verão chegava ao fim. Num gesto inesperado revela perante os seus olhos o resultado do seu idílio. Fita silencioso a figura humana que ali se senta sobranceira entre os escombros que a ocultavam. "Levanta-te e anda!" grita exasperado, mas a figura pétrea olha distraidamente para o lado, contemplando as rosas secas no jardim.


Raiado pela incompreensão e incrédulo, o génio lança-se sobre ela e de martelo e escopro em punho ataca o velho recém-nascido por sua mão. Quebra-lhe o gesto altivo transformando os dedos nodosos em cascalho, a que se seguem os braços encostados que rapidamente perdem a forma e furioso martelando-lhe os joelhos, os membros rapidamente se confundem com os escombros do nascimento daquilo que agora morria.


O ar anseia, o coração palpita forte e esperam-no. Incrédulo e com olhar langue e cego fita a expressão arrogante daquela cara erguida sobre um torso desmembrado que ridiculamente parece ignorar toda a situação. Num último ímpeto de raiva, investe contra a sua obra e desfere-lhe um rude golpe no meio daquela expressão que O enfrentou e agora cai por terra: a cabeça fitando o infinito é decepada e rola no chão e deixando adivinhar as linhas que a definiam.


O jovem pega por fim no escopro, e em direcção ao torso do velho decapitado: "pam, pam, PAM… … (silêncio)", o martelo enterra o escopro no peito trabalhado. Fitando os escombros limpa o suor, sorri candidamente e vira as costas… Daquilo que era nada fez tudo e do tudo o reduziu a nada.


André Cunha

Samstag, 8. August 2009

Olhó poema fresquíííííííííínho!


Albatroz


Da linha do horizonte abstracto
Co'a brisa volátil do oceano
Vem céu e mar rasgando sem ter rumo

Sempre a luz terna que o aquece
E enquanto dura tudo promete
Nas revoltas águas se evade

Volteando a espuma agreste
Que é ele voando e não é
Contra o seu próprio ser se bate

A bruma antiga rasga errático
Mas nela se banha voluptuoso
De si tristemente escarnecendo

Espera sem fortuna o momento
Em que pelo crepúsculo planar
E no mar a figura espelhar.

Pedro A. Cosme e S.


***

Dienstag, 21. Juli 2009

Der Wanderer über dem Nebelmeer

~*~

Se até à falésia me abeiro
Para as tuas velas enfim olhar
E voando então sobre o mai
Tua luz me cegar como um raio

Se na nívea espuma entrar
Querer-me-á a maré impedir
Quererá a corrente impelir
E tu segues sempre no teu mar

Oh tão perdido estaria
E em toda a alma elevado
Com a voz ausente por fim diria

Este meu coração troveja
Das intempéries fortalecido
Em torrentes largas se abrirá.

Pedro A. Cosme e S.

***

Phoenix

Caríssimos, aqui estou...

Confesso andei tresmalhado em felicidades e depois - ÓMestre Epicuro como devia eu já saber! - andei perdido no abismo de mim próprio.

Mas agora retorno ardente, prestes a dar-vos o ultimo da minha carmina.

Montag, 20. Juli 2009

O Génio



«Libertaste-me! - pois, que desejas de mim?
Que te teça um manto com o fio do Horizonte?
Que faça brotar para ti, de uma só fonte,
Prata e ouro e mulheres e terras sem fim?

Que faça de ti um náufrago num mar de vinho?
Di-lo, apenas, e eu concretizo o teu desejo!»
- «Eu desejo... que cales o teu cacarejo
E me deixes alcançar tudo isso sozinho.»
- Rafael Silveira Neves

Mittwoch, 1. Juli 2009

Vai e Vem


«Vai e Vem»


Ela vai e vem, feroz e atroz,
Ela vem e vai, e nós os dois, tão sós...

Tão sozinhos na noite, eu e a minha maré
Consumimo-nos numa batalha de vagas:
Consome-me a maré em milenares chagas,
E eu, pétreo, vejo consumir-se a minha fé.

Ela vai e vem, feroz e atroz,
Ela vem e vai, e nós os dois, tão sós...

Sou uma rocha tosca que a Eternidade odeia,
Pois que envia a maré e seu eterno flagelo;
De esfomeadas ondas negras, presas de gelo,
E de garras de vento, até eu ser só areia.

Ela vai e vem, feroz e atroz,
Ela vem e vai, e nós os dois, tão sós...



Rafael Silveira Neves, 01/07/09

A Jaula e as Feras



«A Jaula e as Feras»


«Centos de doidos vivem nesse hospício
(Quem no diria, olhando cá de fora...?!)
E o Portão dança já no velho quício,
Dança, e faz entrar mais a toda a hora.

Trazem todos um sonho, um crime, um vício,
Foram imperadores longe, outrora,
E em seus rostos de espanto ou de flagício
Não sei que ausência atroz se comemora.

Faz medo e angústia olhá-los bem nos olhos;
E lá, por trás de grades e ferrolhos,
Estoiram de ansiedade desmedida.

- Meu corpo, ó hospício de alienados,
Abre-te aos meus desejos enjaulados,
Deixa-os despedaçar a minha vida!»

- José Régio